terça-feira, 25 de novembro de 2025

25 De Novembro - Dia Internacional Da Não Violência Contra A Mulher E O Assassinato de “As Mariposas” Pela Ditadura de Trujillo (República Dominicana)

 

                                        http//diariocaiacarense. blogspot.com/2012 

O dia 25 de novembro foi denominado o Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher homenageando três irmãs, ativistas políticas: Pátria, Minerva e Maria Teresa Mirabal, brutalmente assassinadas pela ditadura de Leonidas Trujillo, na República Dominicana. O fato que culminou nesse episódio trágico originou-se de um agravo sofrido por Minerva, assediada por Trujillo durante o “Baile do Descobrimento”, em 12 de outubro de 1949, para o qual fora convidada toda a família. Impulsiva, a jovem repele injuriada o ditador e, então, toda a família foge do baile antes do final, atitude vista pelos órgãos oficiais como afronta dos Mirabal ao governo. A partir desse incidente as três mulheres e seus familiares passam a sofrer forte repressão. Perdem a casa e os recursos financeiros, contudo, num olhar pelo país percebem o abalo no sistema econômico em geral, com o governo de Trujillo levando ao caos financeiro. Elas formam, então, um grupo de oposição ao regime tornando-se conhecidas como Las Mariposas. Por diversas vezes foram presas e torturadas, mas não deixaram de lutar contra a ditadura. Decidido a eliminar essa oposição, Trujillo manda seus homens armarem uma emboscada às três mulheres, interceptando-as no caminho da prisão onde iam em visita aos maridos. Conduzidas a uma plantação de cana de açucar foram apunhaladas e estranguladas em 25 de novembro de 1960. Esse fato causou grande impacto entre os dominicanos que passaram a apoiar as idéias das jovens, reagindo às arbitrariedades do governo e, em maio de 1961, o ditador foi assassinado.
Em 1981, durante o Primeiro Encontro Feminista Latino-Americano e Caribenho, realizado em Bogotá, Colômbia, o episódio foi relembrado sendo a data proposta pelas participantes do encontro para se tornar o Dia Latino-Americano e Caribenho de luta contra a violência à mulher. A Assembléia Geral das Nações Unidas (em 17 de dezembro de 1999) também declarou o 25 de novembro o Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher, em homenagem ao sacrificio de Las Mariposas.
A tragédia que se abateu sobre as irmãs Mirabal há 51 anos se por um lado configura-se um ato de violência política, também pode ser visto como violência institucional (embora esta inclua outros aspectos infringidos às mulheres), haja vista que foi cometido por forças de um governo constituido. E a partir dele fez eclodir entre os movimentos sociais mundiais o combate às demais formas de violência que se abatiam contra esse gênero.
A violência é um termo polissêmico e o seu uso aponta para as formas diferenciadas de constrangimentos morais, coativos ou através da força física explícita, aplicada por uma pessoa contra outra, num ambiente que pode ser tanto público - no contexto social e político – como privado, no espaço familiar.
Esta percepção levou ao reconhecimento de que certos comportamentos nas relações sociais, embora fossem vistos como “naturais” tramavam contra a dignidade humana. A denúncia dos movimentos de mulheres ao tratamento que muitas mulheres recebiam nos locais de convivência, impedidas de participar de determinada atividade, e/ou em casa, quando agredidas pelo marido, pelos filhos ou pais por não fazerem as tarefas domésticas e/ ou por ciúmes, essas atitudes passaram a ser denunciadas como atos de violência recebendo o tratamento devido de entidades governamentais e ONGs ao considerarem essas condutas destrutivas da condição humana.
Conferências, convenções, acordos, cartas constitucionais e demais documentos internacionais foram abrigando discussões e fundamentos legais para a erradicação das formas de violência que acometiam as mulheres. A Conferencia Mundial de Direitos Humanos de Viena (1993) criou o slogam considerando que "os direitos da mulher também são direitos humanos". E em 9 de junho de 1994 foi assinada pela ONU a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher, mais conhecida como Convenção de Belém do Pará porque a Assembleia Geral desse órgão foi realizada nesta cidade. O documento levou em consideração “o amplo processo de consulta realizado pela Comissão Interamericana de Mulheres desde 1990 para o estudo e a elaboração de um projeto de convenção sobre a mulher e a violência”.
Os dados sobre a violência doméstica no Brasil são muito sérios. E já são bem visíveis entre a população. As evidências de que os/as brasileiros/as já reconhecem diferentes formas de agressão como sendo violência doméstica são apontadas na pesquisa do Instituto Avon-IPSOS – “Percepções Sobre A Violência Doméstica Contra A Mulher No Brasil” – realizada de 31/01 a 10/02 de 2011, em 70 municípios das 5 regiões brasileiras, entre homens e mulheres com 16 anos ou mais. Segundo o relatório: “entre os diversos tipos de violência doméstica sofridos pela mulher, 80% dos entrevistados citaram violência física, como: empurrões, tapas, socos e, em menor caso (3%), até a morte. Ou seja, a violência física é a face mais visível do problema, mas muitas outras formas foram apontadas. 62% reconhecem agressões verbais, xingamentos, humilhação, ameaças e outras formas de violência psicológica como violência doméstica, assim como a sexual e a moral”. Para a maioria, esses atos são vistos como uma questão cultural (50%), e consideram que o homem ainda se acha “dono” da mulher (41%) (cf.www.institutoavon.org.br )
A REDEH e o Instituto Magna Mater lançaram o em 2011 a campanha “Quem ama abraça” objetivando a atenção da população para o seguinte quadro: “a cada duas horas, uma mulher é assassinada no Brasil; seis em cada dez brasileiros conhecem alguma mulher que foi vítima de violência doméstica; 30% das mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de violência doméstica; a cada dois minutos, cinco mulheres são violentamente agredidas no Brasil”. Isso ainda é alarmante.
E neste ano de 2025, como está essa dimensão do feminicídio no Brasil?
Segundo O Mapa da Violência de 2025, divulgado em junho pelo Ministério da Justiça, o número de feminicídios no país teve aumento de 0,69% em relação a 2023, com 1.459 mulheres mortas em 2024 (ou seja, foram quatro mortes por dia). Contudo, a partir dos dados parciais neste ano de 2025 continua em alta.
(Texto publicado no jornal “O Liberal” e, no blog, em 2012. E reformulado em 2025) 

 

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

 

            NAS FOTOS,OS IRMÃOS REIS MIRANDA  - FRANCISCO DE ASSIS, MANOEL TEODORO,                             CORIOLANO, LUZIA E JOÃO ROBERTO 

ONDE ANDAMOS?

Memórias de uma família e as mudanças climáticas e culturais

Crescemos com a convicção — ainda que não enunciada — de que natureza e cultura formavam um tecido contínuo no qual nossas vidas se entrelaçavam. Éramos as crianças Reis Miranda, abaetetubenses, filhos de um pai comerciante e de uma mãe de múltiplas profissões, cuja atuação política e comunitária marcava profundamente o cotidiano familiar. Sem perceber, vivíamos dentro de um sistema de relações ambientais e culturais que hoje dialoga diretamente com debates sobre mudanças e crise climáticas, sustentabilidade e justiça social na Amazônia. Naquele tempo, porém, esses termos ainda não ocupavam discursos públicos nem debates escolares; eram inexistentes como “conceito”, embora presentes como prática de vida.

Nosso dia a dia era entremeado por ações que hoje seriam classificadas como sustentáveis, mas que, para nós, eram apenas o modo natural de existir. O plantio de vegetais, ervas e frutas nos quintais; o aproveitamento integral dos recursos disponíveis; a produção de alimentos a partir de animais criados por nós mesmos; o uso de produtos locais e de longa duração — tudo isso fazia parte de um sistema doméstico autônomo, moldado tanto pela necessidade quanto pela cultura do cuidado. A Amazônia, ainda distante das pressões extremas impostas pela expansão agroindustrial e pelas mudanças climáticas contemporâneas, oferecia um ambiente em que a relação com a terra se expressava em reciprocidade e respeito, mesmo sem que tivéssemos plena consciência ecológica.

Mas não era apenas a natureza que estruturava nossa formação. Havia também um forte cultivo da cultura e do conhecimento. Participávamos de sessões literomusicais promovidas pelo SESP (Serviço Especial de Saúde Pública) e pela escola pública, experiências que, embora simples, inseriam-nos em um circuito cultural que valorizava a leitura, a pesquisa e a expressão oral. Essas atividades eram inspiradas em uma política educacional que, nas décadas de 1950 e 1960, buscava introduzir práticas higiênicas, de saúde preventiva e de educação comunitária nas regiões interioranas do Brasil — especialmente na Amazônia, vista como território estratégico.

A relação com a terra

No quintal, o cultivo de hortas seguia os ritmos da estação, das chuvas e da fertilidade do solo. Plantávamos legumes, hortaliças, temperos e ervas que abasteciam a cozinha diariamente. Essas práticas estavam alinhadas a saberes tradicionais transmitidos por gerações — saberes que, embora não reconhecidos oficialmente, constituíam um patrimônio ambiental e cultural amazônico. É impressionante perceber, hoje, como esse cotidiano antecipava, de modo intuitivo, discussões contemporâneas sobre soberania alimentar, agroecologia e autonomia comunitária.

Os animais faziam parte desse universo doméstico, desempenhando funções afetivas e alimentares. Convivíamos com coelhos, cães e galinhas; criávamos patos, perus e porcos, todos nomeados como membros da família. A galinha Pintada, o porco “31”, o temido “Cara Preta” — todos tinham histórias, personalidades atribuídas, laços construídos com as crianças da casa. Entretanto, vivíamos também a contradição própria das famílias interioranas: os animais afetivos eram, ao mesmo tempo, provisórios. Quando chegava o “tempo deles”, como dizia nosso pai, éramos afastados para não testemunhar o sacrifício. Nesse gesto, misturavam-se o respeito, a necessidade e uma tentativa de preservar as sensibilidades infantis.

O cultivo da cultura

Aos sábados, nossa pequena comunidade doméstica e do ensino público (grupo escolar da cidade) transformava-se em espaço de apresentação e conhecimento. Declamações de poemas, leituras comentadas, alguma história sobre rios ou a floresta ou a apresentação de uma pesquisa feita durante a semana sobre um fato ocorrido em torno de uma doença ou pesquisas sobre doenças comuns na região, recomendações de cuidados sanitários, instruções sobre preservação da água potável — todas essas atividades compunham um ambiente cultural e científico improvisado, mas profundamente marcado pela pedagogia da época, apresentado nos espaços do grupo escolar. Esse movimento não era isolado: fazia parte de uma política nacional de saúde pública que buscava instruir as populações ribeirinhas e interioranas sobre prevenção de doenças tropicais, higiene e bem-estar social.

Hoje percebemos que essas práticas contribuíam para construir um repertório de saberes que combinava o tradicional e o institucional, formando em nós uma consciência precoce sobre o valor do conhecimento integrado à vida.

As dimensões do silêncio

Entretanto, apesar dessa vivência rica e plural, havia silêncios profundos que só a maturidade nos permitiu reconhecer. Não discutíamos o desmatamento, a degradação dos rios, a perda da biodiversidade ou os impactos ambientais gerados pelos ciclos econômicos da região — temas que, décadas depois, se tornariam urgentes. A Amazônia passava por transformações estruturais desde o período da borracha até os projetos desenvolvimentistas da ditadura militar, mas esses processos eram invisíveis nos discursos cotidianos das famílias interioranas e do ensino público.

Mais profundo ainda era o silêncio sobre a desigualdade racial. Não se falava sobre os povos indígenas, sobre as comunidades quilombolas, ribeirinhas ou sobre a presença e contribuição dos povos negros na formação amazônica. Vivíamos imersos em um sistema de racismo estrutural que naturalizava desigualdades, apagava identidades e criava a ilusão de que “todos éramos iguais”. As diferenças de classe e cor eram tão normalizadas que se tornavam abstratas, imperceptíveis, como se não fizessem parte do mundo real — embora estivessem em toda parte.

Nossa mãe e nosso pai desempenhavam ações de caridade e assistência social que tentavam, de alguma forma, amenizar essas desigualdades. No entanto, faltava a compreensão estruturada de que essas diferenças não eram apenas pessoais, mas históricas, políticas e sistêmicas.

O que a memória revela hoje

Hoje, revisitar essas memórias é reconhecer camadas que, quando vividas, permaneciam ocultas. A interseção entre classe, raça e acesso à saúde estruturava a vida social de uma forma que só décadas depois se tornaria evidente. O uso de plantas medicinais, tão frequente em nossa casa, refletia não apenas um conhecimento tradicional, mas também a falta de acesso amplo a sistemas de saúde modernos, criando uma dependência de práticas curativas em vez de preventivas.

Outras evidências, antes difusas, agora se mostram claras: vivíamos sob impactos de pressões sociais e econômicas da época, marcadas por desigualdades profundas que moldavam o cotidiano e as oportunidades. As experiências que, na infância, pareciam apenas parte do ritmo da vida, hoje revelam sua dimensão histórica, cultural e política.

Percebemos, assim, que nossas memórias não são apenas recordações afetivas; são também testemunhos de um Brasil interiorano que carregava, em silêncio, as complexidades das desigualdades sociais e raciais que ainda hoje ecoam.

 (Luzia Álvares, 19/11/2025)