terça-feira, 9 de agosto de 2016

UMA VIDA ... COMEÇOS E RE-COMEÇOS

Foto de março de 1961 - Um barco, os caminhos, as travessias ...

Nada, nada, são 80 anos. Como é chegar a essa idade? Vivendo, ora. Mas a sentença etária define-se pelas fases da vida e a contagem já apresenta um repertório de caracterizações que as áreas de conhecimento, de um modo geral, criam adequações utilizando-se desses formatos para extrair as representações de cada uma.
Do nascimento à velhice as peças de um quebra-cabeça existencial revelam a estrutura da ambiência vivenciada por uma pessoa considerando-se hoje os marcadores sociais da diferença com evidência nas situações de gênero, geração, classe social, raça, orientação sexual. Que em tempos pretéritos condicionava-se nos aportes da cultura de uma natureza humana em que o mundo material definia a condição originária sem mostras de que as fases de vida dos humanos sofria os impactos desses marcadores.
Hoje (09/08) o Pedro Veriano completa 80 anos. Na verdade, a reflexão que faço quer repercutir no que essa idade exprimia para a nossa geração e para o momento atual. Daí a referência aos marcadores sociais. Sem estes não é possível contar hoje a história de alguém. É a História no tempo presente.
Nascido de pais já maduros, conviveu com as brincadeiras infantis de um garoto de classe social média, estudou em casa com professor particular, só criando maior socialização na pré-adolescência quando foi matriculado em colégio particular. Nesse tempo encontrou amigos e conviveu com as brincadeiras próprias ao seu gênero, mas já se iniciara em gostar de cinema, de literatura, de desenho gráfico, de música, de leitura, de ficção científica, de criar enredos para novelas de rádio, de escrever jornalzinho e roteiros para filmes e tirar fotografias.
É esse o adolescente, depois o jovem e, mais tarde, o adulto que definiu sua vida profissional em outros moldes, nos que a família esperava fazê-lo seguir num estudo superior. E a medicina foi o ramo escolhido, considerando que o irmão mais velho já se fizera médico.
O Pedro que eu conheci, já estava na juventude. Na mesma geração que a minha, e embora ele residisse na zona urbana do estado, representava, ao meu ver, aquele jovem que estava “pronto” pra namorar. E dessa fase em diante conjuga-se outro marcador, a heteroafetividade que àquela altura era vista como a situação natural entre os jovens.
E lá se vão muitos anos. No processo de convivência, se ontem a cultura condicionava um modelo feminino à maternidade, à educação dos filhos, ao espaço privado do lar para desenvolver as qualidades naturalizadas ditas “femininas”, e aos meninos a condição era de se tornar o provedor do lar, conquistando o espaço público e o trabalho, aos poucos foram se sucedendo mudanças nesse processo e o aspecto imposto culturalmente e autoritário pela aliança de casamento foi se desfazendo em parceria. A ideia de sujeitar-se a esses modelos masculino e feminino estava internalizada, sendo necessário uma grande onda de novas práticas para contrapor-se aos costumes esperados.
Vimos o tempo passar. Vimos as mudanças sociais se desenvolvendo na trilha do grande projeto de vida sendo construído, que indicava novas personagens entrando em cena (filhas, genros, netos/as, bisneto) daí tratar de começos e re-começos. E se pensávamos em começos, nessas novas historinhas já criávamos processos de re-começo. E a vida continuou e vai continuar.
Ontem perguntei ao Pedro Veriano: como é chegar a essa idade? Ele me disse:
“Fred Astaire morreu aos 88 e foram comunicar ao Irving Berlin, o compositor, que chegou aos 101. Irving estava na casa dos noventa e passeando com seus cachorros pela rua exclamou: “Mas o Astaire? Tão jovem!”. Assim eu me sinto chegando aos 80. A cabeça vai bem e isto me parece o mais importante. E quando todo mundo fala em idade eu penso ainda em Henry Rider Haggard (1886-1925) no seu livro “Ela” (She, 1887) filmado duas vezes com o nome brasileiro “Ela, A Feiticeira”. Ele escreve que o maior inimigo do homem é o relógio, que gradativamente vai registrando seu envelhecimento e, obviamente, o caminho da morte. Medir o tempo dá nisso. Melhor é festejar o que já se venceu. E melhor ainda é aquilatar a qualidade do que passou, o que foi bom, útil, criativo”.



segunda-feira, 25 de julho de 2016

SEM AMARRAS...


  



Às vezes, me deparo com algumas cobranças pessoais ao supor que não tenho feito o “dever de casa” da antiga função de opinar sobre os filmes e/ou temáticas sociais. E sinto que as horas do dia são as mesmas, os programas de assistir aos filmes são ainda mais intensos, as ideias sobre o formato narrativo das produções são cumulativos de contribuições e novos arranjos nos assuntos, e as comparações com os tempos idos em que tudo “dava tempo” se tornam momentos de angústia pessoal. Paro para pensar. Por que me cobro tanta coisa? Já não produzi tanto? Já não apresentei as lições de acordo com o estabelecido?
Mas é o tempo das amarras que impõem a culpa. Quando a idade chega e define quais prioridades devem ser assumidas vemos que algumas funções que acumulávamos podem ser menos tensas e, ao ariscarmos as mudanças, estas não sintonizam de imediato com a disposição que queremos dar-lhes. E nesse confronto, um olhar mais distanciado nos remete aos nossos ganhos e perdas, sendo um momento que devemos manter os lucros porque já enfrentamos muitas travessias para avançar e garantir o êxito. Se naquele momento não reconhecemos valores como a coragem, a ousadia, hoje olhamos pra trás e pensamos: “como foi possível enfrentar essas dificuldades? Fui eu, mesmo?”
Por que forçar o espírito das coisas quando a realidade nos oferece tantos bens que podem reacender as motivações da vida? São tempos diferentes vividos, assumindo as práticas da idade. Ontem a infância nos lançou em várias frentes: na família, na sociedade, na escola, na religião, e tudo o que circulasse fora dessas instituições era motivo de controle. Que na adolescência tomava percurso diferente porque as ideias do “eu sou o quê?” chamuscavam certezas recebidas dos orientadores e nos faziam criar estratégias para fugir à submissão que nem sempre era saudável. E na juventude e idade adulta as decisões se incluíam num jogo de coragem firmando a capacidade de resolver sem hesitação os processos de nossas próprias escolhas. Na ancianidade, a soma de todas as vivências atinge o seu clímax e nos oferece a oportunidade de olhar ao redor e sentir que o empoderamento foi construído nos vários percursos que foram dados, muitos deles por caminhos desconhecidos. Muitas dúvidas, ainda. Mas na crença que podemos avançar sempre procurando desatrelar os nós construídos em certos (des)valores herdados de determinados estatutos sociais antiquados.
Se na época da nossa formação de infância e juventude se desconhecia o preconceito social, sexual, étnico, de gênero e tantos mais impingidos como “naturais” pelas instituições que haviam tomado a frente da pedagogia humana submetida ao sistema patriarcal dominante, a experiência que vem com a velhice deve transgredir essas regras e criar meios de fugir de certa cultura tradicional que oferece a estabilidade do status quo e violenta os direitos humanos. Há tantas posições hoje aquecidas com o ranço do ódio dizendo-se religiosas ou procurando extrair de livros bíblicos a definição de comportamento humano que não é possível enxerga-las como benéficas. E o aprendizado prossegue intentando subverter o que é possível para não cair nas amarras que só fazem mal.
No blog do Geledés (http://www.geledes.org.br/ ) um texto interessantíssimo (“Por uma pedagogia antirracista desde a creche: descolonizando as armadilhas da educação básica”) remete ao “que fazer” quebrando vínculos com os preconceitos. Recorto um trecho para finalizar este texto:
“(...) É necessário que descolonizemos os “nossos ouvidos” do adultocentrismo permitindo olhar os meninos pequenininhos e as meninas pequenininhas como sujeitos que criam e recriam as relações sociais, bem como resistem a inúmeros enquadramentos normativos estabelecidos para a manutenção das desigualdades sociais.” (...)




domingo, 17 de abril de 2016

AS MULHERES NA POLÍTICA, O VOTO CONQUISTADO E AS LUTAS AINDA EM AÇÃO. AGORA CONTRA UM GOLPE.


Carlota Pereira de Queiroz, a primeira mulher a ser eleita ao parlamento brasileiro, assinando a Constituição de 1934.

As mulheres brasileiras, qual as mulheres do mundo todo, conseguiram o direito à cidadania política na ordem democrática, ou seja, o direito ao voto, através de muitas lutas, prisões, mortes até que as normas criadas por uma sociedade que as considerava "cidadãs de 2a. categoria" , desprestigiando-as, lhes outorgasse esse direito. Nada foi "de graça". Sangue, ferro e prisões têm mostrado às mulheres que elas têm que se manter alertas para não perder direitos conseguidos nesses moldes agressivos.
Ser elegível no processo de representação política também não foi assim tão fácil. Cargos majoritários, no Brasil, somente em 2010 uma mulher conseguiu alcançar. Dilma Rousseff foi a primeira a galgar esse posto. Mas está sendo agredida em nome das políticas que ela administrou num mundo que também sofre de distúrbios econômicos. Mas as acusações resvalam para o preconceito de ser mulher num cargo de alto poder de administração publica - uma exclusão sociopolítica que submete a todas as mulheres do mundo.
Não me calo diante desse infortúnio. De ver, há mais de 30 anos de estudos e pesquisas que as versões da cultura sexista são as mesmas, são de âmbito secular.
Respeito as mulheres que não estão entendendo o processo, cuja mente tem sido "lavada" pela mídia raivosa e parcial que teima em deslocar suas versões para o âmbito político-partidário e etc. Mas não perdoo a quem se submete, desculpem, parentes, amigos e demais, e também não me KALO.
VIVI OS MOMENTOS AUTORITÁRIOS DO PAÍS , ASSIM COMO SOFRI COM OS AMIGOS QUE CAIAM NAS MALHAS POLITICO-POLICIAIS.
E hoje, 17/04, me posiciono: viva a democracia! vida a luta das mulheres! que vença hoje a legalidade democrática.
Na imagem que encima o texto relembro o momento em que Carlota Pereira de Queiroz assinava a Constituição de 1934 (com a posição de 1932 pelo direito do voto feminino). Veja-se: somente uma mulher. Rodeada de homens. E ai? Quem se habilita a desconhecer que as leis e normas têm sido criadas e legisladas e impostas pela cultura sexista que teima em se manter?

sexta-feira, 25 de março de 2016

QUANDO O PODER É SOLITÁRIO

Dilma Rousseff diante de uma corte de julgamento. Presa, lutando pela democracia. Solitária, aquele momento. 

Acompanho, tanto como eleitora como militante social e mais ainda como cientista política as sucessivas tendências de desgaste político a que vem sendo submetida a Presidenta Dilma Rousseff, desde o momento em que foi eleita para o cargo pela segunda vez, em outubro de 2014, com 51,64% de 54.501.118 votos.
As forças opositoras que não conseguiram o cargo pelo direito do voto popular do sistema de representação democrático, criaram uma agenda para desgastá-la formal e pessoalmente sendo visível esse jogo que se tornou uma medida sistematizada das lideranças do partido que perdeu as eleições agregando aos  demais representantes de uma elite partidária que embora  estivesse integrada à base coligada para manter a governabilidade do momento, montou seus palanques e procurou cada vez mais contaminar as múltiplas vertentes que pudessem servir aos momentos mais promissores para cultivar esse desgaste.
O séquito de opositores partidários e da elite conservadora se formou nesse tempo em que o executivo federal procurou estabelecer uma política de rearranjo econômico e social e revalidação de políticas cambiáveis com um tempo de recessão mundial estabelecendo medidas de combate à corrupção política em órgãos integrados às políticas de crescimento econômico e cujas mazelas não se apresentavam com a cara atual, mas vinham de outros governos que subsidiaram as tramas gastando os recursos de seus próprios governos para garantir a hegemonia no poder.
Mas foi em Dilma que recaíram as dúvidas de que era neste momento que as “operações pró-corrupção” eram de seu governo e não vinham de outras épocas. Sangra-se assim, até a morte moral um governo que jamais fechou um canal de imprensa, uma rede social que emitia opiniões ambíguas com o objetivo de criar maiores chagas no desgaste.
As denúncias de corrupção que eram executadas pelos detratores do governo, em que pesem serem emitidas por fontes institucionais consideradas jamais transbordaram para um noticiário de imprensa com acesso de grande alcance. As opiniões dos jornalistas dessa imprensa sempre ocorreram de forma ambígua , tratando o caso com evasivas e/ ou trazendo convidados/as para emitir opinião com o foco na  tabela solitária de um “Brasil que vai pra trás”.
Até o momento em que se dá a responsabilidade de todas as políticas que se criam para fornecer acesso a um Brasil que está forte, que segue vencendo crises mesmo com arrochos e que há necessidade desses acertos para mostrar esse encaminhamento de responsabilidade esse comportamento é tomado como passível de ser um dos motes de um processo de impeachment à mandatária do País.
É aqui que fica no ar minhas questões considerando que embora tenha meu direito de eleitora estou na posse de meus direitos de cidadã para lançar tensão com ímpetos de receber respostas, não dos querelistas, dos tendenciosos, dos que não estão “nem aí” para a vida política que representa o Brasil democrático porque foi eleita por mais de 50 milhões de eleitores:
a)          Onde anda esse eleitorado? Encolheu com as denúncias capciosas dos opositores partidários que perderam as eleições em 2014 e se propuseram a “avacalhar” os representantes eleitos até chegarem ao poder?
b)          Onde andam os movimentos sociais que não repercutem em coletivo salvo em posições de um ou outro líder sobre a situação que está sendo vilipendiada nacionalmente?
c)          Onde buscar os filiados/as do Partido incumbente – o PT – que embora em notas aqui ou acolá – não tomaram à frente a posição de desmontar esses incautos predadores?
d)          Onde estão os grupos de pressão integrados ao PT que se calam e em um ou outro post nas redes sociais acha por bem assumir uma posição às vezes ambígua para desnortear esse arcabouço de incertezas contra a presidente?
e)          Onde fica o Ministério da Justiça que deixa as inverdades escalarem a tal ponto a linha informativa que não acorre às leis e as posições demonstrativas de que o lado da barganha tradicionalista está tomando a frente do poder e desmontando falaciosamente os caminhos da busca por uma política de integração com o mundo em recessão para sair da crise?
f)           Onde andam os movimentos de mulheres e feministas que deixam as pancadas masculinas (de homens e mulheres) sangrarem até a morte o corpo político e físico da primeiro mulher a ter a ousadia de assumir o poder de decisão nacional, procurando articulação com as coalizões partidárias que só têm mesmo de seu o medo de perder o poder?
g)          Aonde andam as lideranças das coalizões partidárias do governo que não tomam a frente de uma ofensiva mais direta nessa onda de terror político que tem deixado o país em tensão, sem saber para onde correr?
h)           E finalmente, aonde anda a imprensa alternativa que não cria um coletivo para se apor contra esse “globismo” inveterado que vem dissipando as mentes da população desde as primeiras fases da ditadura de 1964?

Fico pensando que temos nas mãos o poder de reverter esse estado de coisas que está ocorrendo no Brasil, e mesmo se forem usadas as armas dos detratores devemos estar seguros de que vislumbramos o poder solitário da Presidenta Dilma Rousseff e não a deixaremos só. (Luzia Álvares)

(Obs. Texto escrito há mais  de dois meses quando as forças sociais ainda estavam muito silenciosas)


sexta-feira, 4 de março de 2016

ENTREVISTA - O FEMINISMO E AS VÁRIAS FORMAS DE VIVER AS RELAÇÕES DE GÊNERO



Publicada no jornal "Diário do Pará" em dezembro de 2015, a entrevista considerou  minha posição tanto pessoal quanto institucional sobre o feminismo. A publicação neste blog quer celebrar as comemorações do Dia Internacional da Mulher - 8 de março de 2016,

1.O que é feminismo?
R. É uma ideologia formada por um conjunto de ideias estruturadas no âmbito teórico-cultural-institucional-pessoal das sociedades, que foi incorporada pelas mulheres na luta por seus direitos e por se fazerem reconhecidas enquanto pessoas humanas.
2. O assunto ainda é um tabu em tempos modernos? Por quê?
R. A sociedade global criou suas próprias representações sobre um modelo feminino forjado por um sistema patriarcal que definia e defendia a valorização dos homens como seres mais dotados cultural e de conhecimentos, em detrimento do saber das mulheres. Esse modelo de submissão e de aceitação a um tipo de viver social o qual sempre foi esperado socialmente dos comportamentos femininos – desde o modo de vestir aos gestos e atitudes – cravou até hoje a imagem das mulheres que ainda sofrem violência doméstica por não seguirem o suposto “aparato” criado para elas. Do aspecto objetivo – demandas por certas profissões, atividades “femininas”, comportamentos – ao subjetivo – “instinto materno”, posição apolítica sobre o seu corpo, desconhecimento de si mesmas porque as torna “ingênuas” (sendo esse estado que a sociedade reclama) – todas as possibilidades de envolver novos conhecimentos e consciência política sobre o que é ser mulher servem, muitas vezes, de processos de culpabilização contra as mulheres. As mais ousadas – enfrentando esses tabus culturais – ferem o sistema proposto e caminham para conquistas profissionais, pessoais, afetivas – enquanto um número significativo de mulheres ainda acredita que “ser direita” é não fugir às imagens tradicionais. Por que ainda vigem esses esquemas de manutenção do poder que as submete a esse esquema hostil? É que a cultura disseminada pelo sistema patriarcal ainda é muito forte. E as mulheres têm ainda certo receio em ser mal faladas. Existe isso? Sim. Veja-se que há familias que ainda seguem esses tabus em nome da tradição. Existem mudanças no ponto de vista feminino sobre isso? Sim, creio que sim. Caso contrário hoje não haveria tantas e tantos lutando contra a discriminação contra as mulheres, a homofobia, a violência doméstica.
3. Você é feminista?
R. Sim, sou feminista. À medida que fui começando a visualizar as diferenças que eu percebia entre as mulheres – não havia um só tipo de mulher, mas havia várias mulheres que agiam diferentemente, algumas, minhas familiares – procurei saber a história de vida dessas mulheres e dos homens seus companheiros – essas foram as minhas primeiras impressões sobre essa ideologia sem dela fazer bandeira. Mas através de leituras e de novos conhecimentos sobre o que era ser mulher, o que era “mulher no modelo” e o que era conquistar espaços, sobre as dificuldades desse gênero, que demonstrava sua inteligência e seu saber em qualquer área fui me inserindo na luta sobre o reconhecimento dos direitos das mulheres.
4. Quando e por que se tornou uma?
R. Vejo hoje que a condição de “ser feminista” foi o meu processo de existência que me identificava como uma garota diferente dos meus irmãos, mas, por isso mesmo, eu deveria me submeter a certos padrões femininos da época que aos poucos eu fui entendendo que eram situações que desvalorizavam as meninas e as mulheres em relação aos meninos e homens. Conhecer o porquê uma jovem era “malvista” na minha cidade e cujo comportamento eu não deveria seguir, fazia parte da cultura familiar. No colégio religioso, no internato em Belém, eu me incorporava ainda àquela tradição de “meninas bem-comportadas” e achava estranho que outras colegas fossem vistas como “malcomportadas”. Toda essa bagagem acumulada sobre “ser mulher” e “ser homem” se incorporava na minha forma de ser. Já casada, com filhas, procurando seguir os estudos e alcançando o vestibular na área das Ciências Sociais/UFPA fui abrindo minhas ideias e meu reconhecimento sobre o eixo tradicional - “meu marido”, minha casa”, meus filhos” -  ampliando-se para o olhar sobre as múltiplas mulheres minhas colegas e então, com o pronome possessivo (nosso) – passei a desmontar a figura única feminina para um olhar mais concessivo às múltiplas mulheres com seus problemas, suas vidas, e uma infinidade de outros comportamentos. Me conscientizei da cultura sexista acumulada e passei a lutar contra esses paradigmas clássicos da “imagem feminina”. Investi em me tornar uma outra mulher.
5. Você é uma feminista ativista? (Se sim, explique o que faz uma e, se não, explique que feministas não precisam necessariamente ser ativistas).
R. Há feministas e vejo que algumas são ativistas. Outras são ativistas, mas não se consideram feministas. Cada pessoa tem sua opção por ter respeitada sua forma de ser, a identidade com a qual se investe. Na verdade, a medida que entendi o processo de socialização das relações de gênero em que as pendências desvalorizadas tendiam sempre para as mulheres, passei a ser uma feminista ativista. Como me faço ser? Tenho clareza que há muito os paradigmas que tratam dos direitos humanos incorporaram a luta das mulheres por direitos e por respeito com o fio condutor das lutas sociais. Por que essas lutas além de abraçarem as demandas das mulheres, trazem em seu bojo a luta dos diversos seres humanos que são discriminados socialmente. Assim, estudo, pesquiso, escrevo, oriento, faço palestras, divulgo, integro grupos sociais e de mulheres os mais diversos procurando avaliar o quanto é difícil uma ativista assumir a todos os problemas do mundo e ainda viver em família, com os problemas internos desse grupo. Mas de qualquer forma estou na luta pela justiça social e pelos direitos humanos das mulheres, dos homens, das crianças, dos idosos, dos homossexuais, dos transexuais, dos negros, dos indígenas e tantas e tantas categorias. Enquanto eu tiver vida vou estar do lado dos menos favorecidos socialmente. E vamos ganhando espaços. Ativismo é não calar diante do preconceito e da discriminação.
6. O que defendem as feministas?
R. Se antes a política pelos direitos das mulheres mostrava-as com essa única bandeira para garantir conquistas, hoje as feministas estão em todas as frentes em que se faz necessário lutar pelos direitos humanos. Dizer que elas estão lutando só pelos seus problemas é estar de fora da filosofia feminista atual que tem um leque de demandas para criar o emblema do reconhecimento da diversidade. Lutamos pela incompetência da parcialidade dos direitos, lutamos contra uma cultura segregacionista, lutamos pela amplitude do abraço a todos os seres humanos que estão sem direitos.
7. O feminismo é forte hoje ou já foi mais forte em tempos passados?
R. Não há feminismo, mas feminismos. Sim, a ideia de ampliar a luta das mulheres para contemplar a discussão dos problemas aos demais seres humanos é de ontem, mas hoje se torna bastante intenso. Em cada tempo ele se fortaleceu pelas circunstancias que demonstravam situações de exploração contra as mulheres, mas ainda hoje se reconhece que ele jamais “cairá de estação” até quebrar algumas das ainda persistentes desigualdades sociais.
8. Qual a diferença das feministas de ontem para as feministas de hoje?
R. Em séculos pretéritos, a luta pelo direito político das mulheres, ou o direito do voto feminino tornou-se um tema recorrente de discussão. Mas nessa demanda pela cidadania política onde o voto era o elemento de inclusão política, havia outros processos de valorização que se incluíam com o direito do voto, como o direito a educação de qualidade, o direito ao trabalho qualificado e as relações de trabalho condignas e as profissões de um modo geral. Se essa política pública foi conquistada, hoje, muitas demandas ainda estão na agenda das feministas que vão para as ruas em busca de respeito pelo que vestem, pelo que querem, pela forma de transitar livremente nos mais variados espaços. E tal qual essas mulheres, hoje, todos aqueles que se julgam excluídos fazem coro e repercutem as demandas por seus direitos. A luta contra a violência doméstica e sexual contra as mulheres é uma pauta que mexe com a cultura sexista que ainda está presente na sociedade.
9. A sociedade as vê de forma diferente em tempos modernos?
R. Sim, ainda hoje, em todos os espaços, há discriminação contra as feministas que são vistas de forma equivocada como querendo o espaço masculino e/ou intentando igualar-se aos comportamentos desses seus parceiros. Na verdade, a cultura sexista está impregnada socialmente. Meus alunos do curso de ciências sociais relatam casos deprimentes de críticas preconceituosas quando começam a apresentar assuntos sobre a questão da mulher. E olhe que eles estão numa universidade e num curso que supostamente faz a crítica da sociedade...
10. Temos uma presidente mulher, e muitas mulheres hoje ocupam cargos importantes. Nós avançamos, mas ainda há muito que mudar. Cite as principais reivindicações.
R. A luta das mulheres pelo aumento do número delas na representação política é histórica e ainda não acabou com a conquista do direito do voto, cotas partidárias etc. Foi um avanço termos uma mulher na presidência da república, mas nos bastidores, se há bombardeio de críticas a sua política de governo busque o subjacente sobre a questão das “mulheres no poder”. A cultura contra as mulheres nos espaços de decisão política vai “passar para a opinião pública” como se fosse uma luta partidária, mas não é somente isso. Vejam-se as charges e as críticas a Dilma não ter marido, ser gorda, vestir-se desta e não daquela forma e etc, etc. E aos presidentes, fizeram essas mesmas charges?
No momento, as reinvindicações para a ruptura com a sub-representação política feminina, no caso brasileiro, se inscrevem, inicialmente, com demandas específicas na aprovação da mini-reforma da Lei 12.034/2009 a destinar 5% do Fundo Partidário para a formação política das mulheres, tempo de propaganda partidária fora dos anos eleitorais com vistas a difundir a participação das mulheres, alteração no parágrafo terceiro do artigo 10 da Lei 9.504/1997, que estabelece o número de vagas de candidaturas que cada partido ou coligação destina para cada sexo - “lei de cotas para mulheres”. Ao invés de “deverá reservar” 30% das vagas, a reforma estabeleceu o termo “preencherá” o mínimo de 30% (trinta por cento) e o máximo de 70% (setenta por cento) para candidaturas de cada sexo”, enfatizando o caráter obrigatório do dispositivo. Na reforma política prevista para as discussões deste ano, outros dispositivos devem entrar na pauta como a mudança da lista aberta para a lista fechada com a alternância de nomes de mulheres e homens entre outros pontos.
11. Na festa do Oscar-2015 algumas atrizes presentes protestaram sobre a perguntas que fazem a elas sobre seus vestidos no tapete vermelho, mas esperam tratar de sua carreira, planos, atuação.. Da mesma forma que perguntam aos homens. Qual sua opinião sobre o assunto?
R. Nos anos 1960, na chamada Segunda Onda Feminista, a teórica norte-americana Betty Friedan revolucionou o mundo quando propôs que as mulheres não deveriam ser vistas somente pelo seu sexo, mas por sua inteligência, seu saber. Houve uma crítica ferrenha a esse novo discurso – com o movimento de “queima dos sutiãs” – mas demonstrativo de que também tínhamos ideias inteligentes e deveríamos ser reconhecidas como tal.
Hoje, quem está empenhada nas novas questões de ruptura aos estereótipos culturais ao se sentirem mulheres profissionais da arte, mães, esposas, são as atrizes do cinema que avaliam a forma discriminadora de serem tratadas nos papéis que representam ou nas questões que são apresentadas nas entrevistas a que são submetidas devido ao tipo de perguntas que a mídia lhes faz. Esse não deixa de ser o confronto com o mundo masculino da arte cinematográfica que sempre situou o homem com os principais papéis. Elas estão constatando também que mesmo nessa área não são levadas a serio. É importante a conscientização dessas grandes mulheres que circulam em múltiplos papéis além de seus próprios enquanto seres humanos. Elas merecem respeito.


(Nome: Maria Luzia Miranda Álvares, abaetetubense, doutora em Ciência Política, 75 anos, docente e Pesquisadora universitária (UFPA) e jornalista com trabalho de mais de 40 anos sobre cinema e política). 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O VOTO FEMININO, O SUFRAGISMO PARAENSE E OS NOVOS TEMPOS


Primeiras brasileiras a exercerem o direito do voto 

Há 84 anos, no dia 24 de fevereiro de 1932, foi promulgado o 1º Código Eleitoral brasileiro, através do Decreto 21.076, adotando-se o voto direto, obrigatório e secreto e o sufrágio universal, onde foi, finalmente, formalizado o direito de voto das mulheres. Entre essa conquista e as lutas empreendidas para o alcance desse passo na cidadania feminina, um grupo de mulheres lideradas por Bertha Lutz e parte da sociedade brasileira se movimentaram desde os primeiros anos da década de vinte. Sobre essas ações, considerando a presença das mulheres paraenses em movimentos políticos instigativos extrai fragmentos da história desse processo no Pará para a minha dissertação de mestrado tornando visível os avanços que nossas conterrâneas impuseram no processo.
Desde a década de 1920, a sociedade paraense presenciou o debate sufragista. Em 1923, Orminda Ribeiro Bastos, advogada e jornalista, posiciona-se através da imprensa, desenvolvendo pontos positivos e negativos que ela considerava essenciais nas reivindicações do movimento emancipacionista instalado no sul do país, através da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Faz conferência para a Liga Cooperativa das Operárias de Fábricas, enfatizando a necessidade de instrução como ponto fundamental para a ascensão da mulher na luta pelos seus direitos políticos.
A imprensa da época exala um forte anti-sufragismo nos textos que publica. A ideologia dominante na sociedade reafirma a reprodução dos papéis sexuais, aprisionando a mulher em nome de uma suposta fragilidade biológica, em um campo de atividades menos valorizadas socialmente. Mostra-a "imperfeita e frágil" para suportar a "dureza" imposta pelas condições da política, enquanto o homem, "forte e perfeito" é "talhado" para assumir o espaço público e político. Esse discurso reforçava ainda a concepção sobre a ignorância cultural da mulher apta apenas a mexer "panelas e mingaus". O confronto atinge as raias do paroxismo, quando a prática sufragista é invocada para estabelecer dúvidas à honra da "mulher-cidadã".
O direito do voto levaria a abertura de outro caminho até ali restrito aos homens, a atividade político-partidária, concedendo às novas "cidadãs" o direito de ombrear-se aos "varões" de igual para igual. No discurso de alguns anti-sufragistas deste período, subjaz, de alguma forma, a preocupação com essa provável "igualdade", pois estes desconfiavam que a concessão do direito do voto, levaria, cedo ou tarde, à efetiva representação parlamentar das mulheres, campo restrito da política partidária.
Em 1929 as paraenses Maria Aurora Pegado Beltrão e Corina Martins Pegado solicitam ao Juiz Federal o alistamento eleitoral, mas o arrazoado jurídico contrário à solicitação arvorou-se na justificativa de uma ruptura com a imagem tradicional da mulher.
Orminda Ribeiro Bastos é, sem dúvida, a liderança pioneira do sufragismo paraense da década de 1920. Sua figura mantém um nível equilibrado no debate jornalístico, apresentando suas próprias dúvidas sobre a concessão irrestrita do voto à mulher e à filiação do movimento brasileiro ao movimento norte-americano. Seu compromisso evidencia maior instigamento ao interesse cultural que deveria pautar a preocupação da mulher às suas condições de desigualdade com o sexo oposto. A "anarquia social" vivenciada pelo sistema político brasileiro e o "mau caminho" que tomaria o voto feminino, nessas condições, preocupam Orminda.
É somente em meados de 1931, já instalada, portanto, a revolução de trinta, que se organiza o núcleo feminista, no Pará. A “Folha do Norte” de 12 de junho de 1931 dá o tom da notícia referindo as principais repercussões do movimento em nível nacional. Do registro dos nomes das sufragistas paraenses à frente da associação feminista, identificam-se mulheres com expressão no meio das letradas. O Núcleo Paraense pelo Progresso Feminino é instalado oficialmente em 21 de junho de 1931, constituindo-se uma diretoria provisória sendo indicada Presidente de Honra a esposa de Justo Chermont, Izabel Justo Chermont.
O processo histórico da instalação do movimento sufragista paraense tem uma aura particular e os dados levantados identificam as personalidades femininas de mulheres letradas que organizam o movimento. Mas há um ponto dissonante: são mulheres espíritas que seguem à frente do movimento e, com isso, o sufragismo inicial neste estado favorece discursos inflamados contra elas do clero católico, a exemplo, os escritos da Folha do Norte assinados pelo Padre Florence Dubois.
Deslocando os avanços da cidadania feminina nacional para os dias atuais pergunta-se: o que representou a conquista do voto pelas mulheres brasileiras na ascensão aos cargos eletivos proporcionais e majoritários considerando que esse valor era o mote da participação feminina nesses espaços de poder? 
Num processo continuo, mas incipiente de avanços, vê-se que a nova legislatura iniciada em 2015 cresceu muito pouco em relação a anterior. No Senado, 11 mulheres representam 13,6% dos 81 senadores. E nas Assembleias Legislativas houve o maior número de mulheres candidatas em eleições gerais, mas somente 11,33 % ou 120 parlamentares eleitas. O número de deputadas estaduais e distritais diminuiu 14,89% ao compará-lo à bancada de 2010.
Quanto ao Pará, o eleitorado feminino é de 50,21%, aumentando em relação às eleições de 2010 que era 49,92%. Sobre as candidaturas de representação parlamentar, vê-se que de um total de 170 candidatos para a câmara federal, 31,76% eram mulheres. Nesse caso, este estado que apresentava 5,9% proporcional ao número de cadeiras (17) cresceu para 17,64%, uma vez que elegeu três mulheres, sendo uma reeleita e duas novas. Para deputado estadual, de 637, havia 182 candidatas ou 28,57% do total, contudo, em 2010 tínhamos 7 mulheres eleitas, e no pleito de 2014 reduziu-se para 3.

A não opção das mulheres por um cargo eletivo tem muitos componentes entre os quais a cultura sexista, falta de financiamento de campanha e outros itens da agenda política.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

BELÉM, NOS 400 ANOS




A linha do tempo da história de Belém na minha vida tem um início bem definido: um tempo escolar em que esta cidade acolhia pré-adolescentes em fase de prosseguir seus estudos, haja vista que nas demais cidades interioranas só havia o ensino elementar, ou o chamado ensino primário, uma das etapas da educação básica no Brasil. Era praxe, como dantes (jovens que seguiam para o exterior) e ainda agora (hoje com maiores facilidades porque há escolas de ensino médio em todas as cidades paraenses), os pais que tinham posses, inscreverem seus filhos e filhas nos colégios da capital. Alguns eram hospedados em casa de parentes, outros, sem essa facilidade, tinham que arcar com recursos próprios para que seus filhos/as ficassem internos em colégios particulares, nesse caso, o Instituto Santa Rosa, o Santo Antonio, o Gentil Bittencourt, o Santa Catarina, o Lar da Providência, para as meninas, e para os meninos, o Colégio do Carmo e o Nazaré. Havia os semi-internatos, casas familiares que recebiam jovens interioranos, como o da casa da Professora Nídia.
Desde pré-adolescente, então, reconheci esta cidade como o espaço que me daria uma formação aspirada pelos meus pais, e nessa trajetória, os anos se passando, a aclimatação me deu oportunidade de convívio com a geografia do território onde as letras do saber mais apurado iam se acumulando e o reconhecimento sobre o cotidiano desse espaço se tornava mais um saber a dividir, em períodos de férias, com os familiares e/ou os amigos interioranos.
É desse tempo que suponho ter passado a amar esta cidade que mais tarde se tornou o berço das minhas filhas e hoje, de netos/as e de um bisneto. O deslocamento residencial circunstancial entre os bairros belenenses definiu o meu entendimento sobre as políticas urbanas que se faziam de forma diferenciada reconhecendo o que era centro, médio-centro, periferia e vilas-satélites. A convivência, desde a adolescência, com essas comunidades, mostrava-me a circunscrição habitacional revelando-se áreas de moradia, de comércio, de feiras, de acumulação do lixo que era recolhido e levado para o forno crematório (desativado há algum tempo), um local do Bairro da Cremação criado na administração do Intendente Municipal Antonio Lemos como medida de saneamento. Os lugares públicos como as praças ficavam sempre nas áreas do centro da cidade, efeito ainda desse processo de urbanização lemista. Casas edificadas de tipos semelhantes às imagens de residências européias mostravam o garbo de um passado que teria sido de grande riqueza e empenhado nos emblemas de títulos como o de “Metrópole da Amazônia" ou de "Cidade das Mangueiras".
Deslocando minha trajetória escolar de uma fase de reconhecimento meio superficial para uma outra agora em nível de pós-graduação tive acesso à história regional escrita e comentada verbalmente, à documentação sobre as políticas públicas que foram propostas, legisladas e executadas e algumas impostas durante as várias gestões no governo municipal de Belém do princípio do século XX. E desse acúmulo de informações onde o centro da minha questão eram as mulheres na política testemunhei, entre versões sobre os fatos ocorridos em ao menos dois períodos histórico-republicanos, os litígios entre “príncipes” da política local que se digladiaram, se arruinaram, foram depostos e expulsos da cidade. A crise entre Antonio Lemos e Lauro Sodré e suas “entourages” que levou à deposição e expulsão do primeiro há mais de cem anos (1912) demonstrou ser em decorrência de modos políticos de governar. A denúncia da oposição contra o “velho” Lemos cujo apogeu de mando se dá entre 1904-1909, mas durante 15 anos no poder da cidade, se inclinava a considerar que sua gestão se realizava de forma patrimonialista e dirigida às classes sociais altas, as únicas que podiam legitimar a forma de urbanização e promoção da beleza da cidade cujo modelo ele captava do governo Pereira Passos, do RJ, e da influência europeia na arquitetura das edificações. Essa denúncia gerenciava a criação de movimentos sociais chamadas de “frentes patrióticas” em forma de ligas intituladas “Liga Moral de Resistência”, “Centro de Resistencia ao Lemismo”, “Clube Democrático Lauro Sodré”, “Liga Feminina Lauro Sodré” que objetivavam “empreender campanhas que solucionassem a chamada "anarquia social", supostamente estabelecidas nacionalmente desde o período de Campos Sales, com a centralização do poder das oligarquias estaduais.

Com a interventoria de Magalhães Barata, em uma segunda república, a gestão da cidade deu-se entre novos rumos onde as políticas do Programa da Aliança Liberal promoveram medidas de cidadania fortalecendo a base de políticas públicas para a classe operária, por exemplo, cuja situação deixou de ser tratada como “caso de polícia” para ser favorecida como questão social. O urbano belenense teve uma nova reconfiguração também, pois, as fábricas foram acompanhadas pelo gestor estadual que tomava para sí os desmandos de pauperização da população e as condições insalubres em que trabalhava o operariado.
Numa Terceira República, pós-1945, a revalidação das questões sociais trouxeram a reconfiguração do espaço urbano cuja “desodorização” (termo usado por Nazaré Sarges) deixou de ser por uma estética plástica da cidade, mas de atenção por novos espaços de sociabilidade intra-classes sociais. Praças públicas que vinham sendo deslocadas de lugares centrais para bairros periféricos, a territorialidade estendeu-se para pensar em outros significados ditados pelas políticas públicas que eram exigidas então e implementadas segundo a vontade política do gestor.
Hoje, o que pedimos como presente para festejar o aniversário de Belém, no caso esses 400 anos? Que os gestores administradores da cidade avaliem quais políticas ainda estão nas gavetas e, conforme as possibilidades, implante-as, em torno de áreas tão carentes como educação, saúde, saneamento, segurança e a cultura, um dos ramos mais esquecidos ainda.
Nestes 400 anos circularam na cidade muitas promessas de melhoria de vivência para a população. Se Antônio Lemos (1897-1911) marcou o período de urbanização da cidade concedendo partes do território urbano para o investimento com recursos privados de um empresariado que se locupletou dessas benesses, mas deixou um cenário simbólico da riqueza amazônica, Edmilson Rodrigues (1997- 2004) já nos anos noventa do século XX recuperou parte do prestigio de marcos históricos e investiu em novas imagens para levar ao apogeu alguns símbolos locais que estavam desprestigiados. E nessa nova moldura incluiu as demandas de uma população que definiu em assembleias populares a aplicação dos recursos a serem aplicados no beneficiamento de demandas dos cidadãos que faziam parte da cidade.

Mesmo que desfigurados, os documentos tradicionais e históricos desse tempo da fundação da cidade, o belenense ama a sua terra e por isso pede que neste momento de comemorações o poder público não esqueça que além das melhorias de uma fachada arquitetônica não deixe de reconhecer que a cidade só é forte por que seu povo faz dela o seu grande apoio afetivo.