quarta-feira, 2 de maio de 2012

E O TRABALHO, COMO VAI?


Quadro de Tarsila do Amaral (1933) - Dia do Trabalho

A escolha de 1°de maio como “O Dia do Trabalho” veio de uma greve acontecida em Chicago (EUA), no ano de 1886, com a consequente repressão policial que mereceu um revide e, com isso, a morte de manifestantes e de repressores. O motivo da greve se deu pela luta por diminuição da jornada de trabalho de 13 para 8 horas diárias. Movimentos semelhantes aconteceram na Europa.
Um dia de celebração e homenagens para o/a trabalhador/a é uma conquista que se mantém pelo simples fato de ecoar a voz dos que reivindicam seus direitos laborais. Antes do levante em Chicago, o operariado trabalhava 13 a 14 horas/dia e o número de mulheres era expressivo embora estas recebessem um salário menor do que o dos homens. Em Paris, a Segunda Internacional instituiu o mesmo dia (1° de maio) como data máxima dos trabalhadores organizados que lutavam pelas mesmas causas. A Rússia foi o primeiro país a criar o feriado nesse dia.
No Brasil foi em 1924, governo de Arthur Bernardes. Mas na Era Vargas, o motivo genético de comemorar uma data do trabalhador foi esvaziado transformando-se em eventos festivos com o que era denominado de “festa cívica”. Mesmo assim, foi melhor do que em Portugal quando, no governo Salazar, o tema (e data) foi proscrito só retornando à pauta nos anos 1970, depois da introdução de um regime democrático. Explica-se este temor dos governantes de direita pela idéia circulante de que se tratava de”coisa de anarquista ou de comunista”. Na verdade, àquela altura, o movimento operário se articulava nessas tendências, na social-democrata e “trabalhista”, cada uma delas tendo como indicativo de luta a melhoria das condições de trabalho e a diminuição da jornada extensiva a que eram submetidos os trabalhadores.
Getúlio Vargas no poder (1930-1945) usou a data para lançar suas medidas de proteção ao trabalhador, devidamente alardeadas e que fizeram a popularidade do ditador a ponto de incentivar a sua volta à presidência (1951-1954) quando já havia sido reinstituída a democracia no país. A marchinha carnavalesca “Bota o retrato do velho outra vez/bota no mesmo lugar...” era voz corrente nas rádios e entre a população, incentivando o eleitorado a votar usando as benesses que ele havia criado.
Os militares governantes pós-1964 não aboliram o 1° de maio como “festa comunista” seguindo a fobia por tudo o que era voltado ao operário sugestionado com as críticas à categoria de que as reinvidicações eram “coisa de esquerda” para desestabilizar o país. Mas a manifestação passou a ser um feriado como tantos outros, envolta em eventos festivos que propagassem os feitos oficiais.
Mesmo com as reivindicações do “dia do trabalho” as condições da mulher trabalhadora não mudaram totalmente no que se refere à diferença de remuneração com o parceiro. As pesquisas do IBGE apontam a continuidade deste gênero em uma dupla jornada, ou seja, ela continua nas lides caseiras e assume o exercicio profissional fora de casa acumulando atividades. Isto se soma aos atrativos da modernidade que implicam em automatização da cozinha, à lavagem de roupa etc. Mas também se invoca a terceirização de serviço e a classe média brasileira apoia-se na empregada domestica e esta, por sua vez, ganha padrões inexistentes, antes, na classe menos favorecida, como carteira profissional assinada pelo patrão, descanso semanal obrigatório e horário de 8 horas com extra se mais for exigido.
Contudo, o quadro diferencial entre o trabalho da mulher e do homem ainda aponta diferenças. Hoje, este gênero conseguiu exercer funções antes só assumidas pelo sexo masculino, até mesmo em áreas impensadas no passado não muito longínquo. Quanto à diferença salarial, que este ano conseguira uma grande conquista referente a equiparação imposta às empresas com punição para as que não obedecessem a lei, pelo que se lê na revista Carta Capital de 09 de março do corrente subsidiada por uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, “o governo desistiu de sancionar o projeto de equiparação salarial entre gêneros para a mesma função em uma empresa (...)”. Outro órgão de imprensa (Gazeta do Povo, 04/04/2012) ao considerar que “a proposta de igualdade salarial entre gêneros é legítima” afirma que  “...numa análise mais apurada, é possível prever que esse projeto não se sustentará, primeiramente por ser redundante, haja vista que a CLT já prevê a isonomia salarial para pessoas que desempenham a mesma função”. O outro problema alegado é o da dificuldade da comprovação da infração, haja vista que os “cargos da iniciativa privada estão em constante transformação”. Espera-se que esses elementos da área constitucional reafirmem o que diz a nossa Carta Magna que até o momento não respaldou os direitos de igualdade para as trabalhadoras.
Quer seja ou não “dia do trabalho”, as conquistas femininas em vários âmbitos estão sendo convertidas em políticas públicas e assentadas em significativas bases devido às pressões desse gênero por seus direitos. Dentre as conquistas mais evidentes da mulher no mundo moderno encontramos a chefia política do executivo. No nosso país só tivemos uma governante do sexo feminino, assim mesmo por vaga familiar, quando a princesa Isabel assumiu o posto do pai viajante, D. Pedro II. Agora, com Dilma Rousseff, encontramos uma pesquisa de popularidade recorde, o que ressalta o valor feminino num âmbito antes impensado pela carga de preconceito.

(Texto originalmente publicado em "O Liberal" de 27/04/2012)

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