domingo, 19 de fevereiro de 2012

TUDO É CARNAVAL

Carnaval é uma festa originária da Grécia entre 600 a 520 a.C.. No período, os gregos realizavam cultos em agradecimento aos deuses, pela fertilidade do solo e pela produção. No final do século V, a comemoração foi adotada pela Igreja Católica. O período ganhou o nome de "carne vale"(adeus à carne), termo latino que marcava o inicio da quaresma, ressaltando-se a abstinência de carne. No passado, o carnaval era o tempo das fantasias e dos bailes, com um esplendor gravado em alguns lugares, como Veneza. Naturalmente, chegou ao Brasil com os descobridores. E não tardou a ganhar popularidade, capaz de legar ao país, o adjetivo de “país do carnaval” (assim como sobre o futebol).
Nosso tropismo pelo carnaval é mais amplo do que é possível pensar observando os desfiles de blocos e escolas de samba em diversas cidades. Há uma “carnavalidade” também na politica. E é um fenômeno historico. Quando da indepêndencia, já eramos carnavalescos a ponto de seduzir o primeiro imperador. Mas a adoção do samba, um ritmo que se formou com os negros escravos, derivado do batuque, deu uma roupagem toda especial à festa. É comum dizer para os problemas não resolvidos que “vão dar samba” (sinonimo do hoje “vai dar em pizza”). E a explicação está nas letras das músicas colocadas desde o século XIX que criticavam governos e posturas.

É muito rico o repertório carnavalesco de critica politico-social. E o ritmo lançado no carnaval não é só o samba: é também (e talvez em maior numero) a marcha. Na Primeira Republica tivemos, por exemplo, uma alusão ao presidente Washinton Luís cantando: “Dr Barbado foi se embora e deu o fora,/(e o coro:) Não volta mais (bis)”
Getulio Vargas teve mais sorte. O Estado Novo ganhou simpatia pelas medidas de proteção ao trabalhador. E isso levou a cantar, quando o ditador foi obrigado a deixar o governo: ”bota o retrato do velho outra vez/bota no mesmo lugar/o sorriso do velhinho faz a gente se animar”.

O periodo de Juscelino Kubitschek, na Presidência da República confundiu-se, em música de carnaval, com a inauguração de Brasilia. Cantou-se: “...Palacio da Alvorada bossa nova/de uma nova Canaã/Brasil que trabalha/Brasil de amanhã/ Brasil que se levanta/Brasil de JK.....”
A ilusão de Janio Quadros foi levantada a partir do emblema da campanha desse candidato a presidencia: “Varre, varre, varre, varre vassourinha/ varre, varre a bandalheira...”

Jango não chegou a dar samba e os militares que o sucederam deram menos. O que se cantou no carnaval foi de encomenda ou de bajulação, apoiando os lemas dos governantes (“Pra Frente Brasil”, por exemplo). A redemocratização custou a ganhar um ritmo. “Lu-la-lá” seria a próxima música (ou o “Vermelho, vermelhaço, vermelhão”..na voz de Fafá de Belém). Mas isto não quer dizer que ritmos diferentes de ação politica estivessem de fora do “repertório” popular. Mesmo sem entoar sambas ou marchas, o povo assistiu a “danças de cadeiras”, de posturas, de idéias e reprimendas. O confisco da poupança do governo Collor e a consequente (por denúncia de corrupção partida do próprio irmão do presidente) geraram uma das maiores concentrações populares da historia nacional: o comício pelo “impeachment”. Replay ampliado do que foi visto anos antes pelas “eleições diretas já” ou o fecho da ditadura implantada a partir da deposição de João Goulart, o vice do renunciante Jânio. Muitas CPIs, muitas mudanças em governos, e hoje o povo aprendeu que se tudo pode dar samba este samba pode estar de acordo com o que o povo pensa, sente e deseja.
O pitoresco no “país do carnaval” é que a contravenção patrocinou desfiles de alegorias (o caso do “Jogo do Bicho”) e um paparazzi chegou a tirar uma foto de um Presidente, num desses prestigiados desfiles carnavalescos, ao lado de uma “vamp” sem calcinha. O brasileiro não perdeu o humor com os chamados “anos de chumbo”. Depois das torturas, da censura que proibia músicas (carnavalescas ou não), livros, peças de teatro e filmes, ele continuou cantando. E os “sujos”, os mais espontâneos carnavalescos, ainda continuam vestindo caricaturas de politicos e satirizando posturas. Isso vem desde “o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais” . Para manter o título de “país do carnaval” é preciso a exibição da alegria. Felizmente ainda se canta para manter esse patamar. É parte de nossa índole, de uma feição cômica advinda da miscigenação a partir de coloniozadores que não resistiam a encantos de outras etnias. Apesar de Lamartine Babo evidenciar a discriminação naturalizada (“e como a cor não pega mulata/(...)”, também ouvia-se “linda morena/morena que me faz penar/ a lua cheia/que tanto brilha/não brilha tanto quanto o teu olhar!”.

O humor brasileiro ganha gerações e desafia o futuro. Como dizia Moacyr Fenelon na abertura de seu último filme, “Tudo Azul”(1951), ele “não ri da desgraça alheia/mas da própria desgraça”.

 (Texto originalmente publicado em "O Liberal"/PA, em 17/02/2012)



sábado, 11 de fevereiro de 2012

OS TEMAS E OS COMPROMISSOS


Aprendi com meus mestres do IUPERJ (hoje do IESP/UFRJ) no período do curso de doutorado em Ciência Política, que nem sempre somos versados em multiplas teorias. Se para alguns essa assertiva configurava repelir problemas polêmicos, a mim me parece sabedoria. Alguém versado em Marx pode ter lido os teóricos utilitaristas e os liberais, mas o compromisso dele é com o conteúdo mais acumulativo.
O preâmbulo vem à conta de meus compromissos neste espaço, por vezes deslocando de um assunto na “ordem do dia” nem sempre com base em teorias da minha qualificação específica, mas por reconhecer certo compromisso mais afinado com as minhas origens. Este é o caso dos 80 anos do Colégio Santa Rosa celebrado em janeiro deste ano. Se por um lado é um tema afetivo às jovens da minha geração que por lá passaram, não deixa de ter hoje certo grau de avaliação e análise sobre um cotidiano marcado por um modelo de sociabilidade para as mulheres daquela época, dificilmente recuperado pela História devido a falta de incentivo à pesquisa sobre essa situação vivenciada nos colégios de freiras.

Em 2010, elaborei um projeto de pesquisa para ser executado por um grupo de colegas, ex-alunas do ‘Santa Rosa”, que àquela altura celebrava 50 anos de formatura nas áreas do curso pedagógico e de contabilidade. “O Protagonismo das Mulheres de uma Geração. História e memória das formas de sociabilidade de paraenses dos anos 1930 a 1950” foi o titulo dado. O interesse era chegar a uma imagem do que teria mudado para essa geração de estudantes algumas remanescentes do internato, outras externas, em torno de sua vida particular e profissional. A justificativa era a seguinte:
A geração de mulheres brasileiras da classe média dos anos 30-40-50 teve uma formação tradicional cujas marcas fortaleceram a educação e a sociabilidade das meninas e meninos desse período. Seguindo os padrões da sociedade da época, mantinham-se submetidas/os a um modelo que se expressava desde o comportamento na família, na escola, na vida social, na religião, sendo, os “guardiões” do cumprimento dos costumes e das normas, os adultos da geração mais velha, podendo ser os pais, avós, tios e tias, o pároco etc.. O modelo era bipolarizado: o preparo das meninas para o casamento e a vida privada, e dos meninos para a vida pública com o dever de este ser o provedor. Às meninas, ensinava-se a manterem os valores sociais que determinavam o padrão da “boa moça” que deveria conhecer os mais específicos ditames da imagem privada e pública de sua condição de mulher. Ou seja, eram “feitas para o casamento”, deviam conhecer todas as atividades próprias à “carreira doméstica” cujo percurso deveriam seguir se quisessem ser “bem vistas” socialmente. Seu valor era reconhecido na procriação e no cuidado com os filhos, com o marido, sendo orientadas para o trabalho doméstico.

Mas, apesar de todo um controle a que as mulheres eram submetidas, nem sempre seguiam esse padrão. Algumas mais ousadas desafiavam as regras e seguiam em frente. Várias situações sobressaiam: enfrentar as crises doméstico-econômicas e/ou por considerarem que esse padrão não se constituía uma imposição.

O Pará, como um Estado muito fortemente marcado pela cultura da Metrópole, em sua fase de formação cultural e política onde se acentuavam os ditames portugueses e franceses, é possível que tenha mantido as normas sociais próprias desse processo da modernização colonizadora. Assim, a pergunta colocada era: as paraenses dos anos 30-40-50 seguiram o processo hegemônico de manter a padronização cultural e educacional das mulheres da Primeira e Segunda República ou apresentaram um estilo próprio em que outras culturas já circulavam quer nas salas de aulas, nas festinhas e/ ou nos encontros sociais?

O que se pretendia com essa pesquisa? Identificar, a partir da perspectiva da história de vida de uma geração, de que forma as transformações sócio-culturais teriam influenciado e/ou mesmo ditado o modelo de gênero nas décadas de 30, 40 e 50 na capital do Estado do Pará e de que forma as “ousadas” quebraram  o padrão e se profissionalizaram, compondo um cotidiano entre o lar e o trabalho fora de casa – uma evidência daquelas mulheres protagonistas da pesquisa.

Infelizmente esse projeto não foi adiante. Seria uma maneira de as próprias pesquisadoras se auto-retratarem e assim mostrar a força das mudanças instaurando as chamadas “bad girls” porque não totalmente voltadas para o seu “único destino”.

Hoje, nos 80 anos de fundação do “Santa Rosa” olhando para trás, vejo as diferenças. Na área física, na área de convivencia entre os gêneros, nos namoros que começam na sala de aula, enfim, outras tendências de relacionamento. No dizer de Jessica Mota (20 anos), neta de uma das jovens dos anos 1960 (extraido do facebook): “No momento, nós estamos em um interregno. Um interregno que significa, simplesmente, que a antiga maneira de agir não funciona mais, e novos modos de agir ainda não foram inventados. Esse é o interregno. E é por isso que não quero dar previsões sobre o futuro, pois ele pode tender para qualquer direção.”
Outras imagens dos anos 1960

(Texto originalmente publicado em "O Liberal", em 10/02/2012)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

COMEMORAÇÕES DO “DIA INTERNACIONAL DA MULHER”


Universidade Federal do Pará
Instituto de Filosofia E Ciências Humanas
Faculdade de Ciências Sociais
Grupo de Estudos e Pesquisas “Eneida de Moraes” Sobre Mulher e Relações De Gênero – GEPEM
Pró-Reitoria de Desenvolvimento e Gestão de Pessoal – PROGEP
da Diretoria de Saude Qualidade de Vida /Coordenadoria de Qualidade de Vida e Responsabilidade Social
COMEMORAÇÕES DO “DIA INTERNACIONAL DA MULHER”
TEMA:

MULHERES AMAZÔNIDAS: IMAGENS, CENÁRIOS, HISTÓRIAS,

         Muitas linguagens expressam o tema proposto para homenagearmos o Dia Internacional da Mulher. Cinema, seminários e o lançamento de um livro com a temática mulher e gênero na Amazônia serão nossos caminhos de valorização em mais uma celebração.

           O cinema expressa em imagens, ajudando também a produzí-las, o que a sociedade tem demonstrado em versões sobre as representações sociais evidenciando as relações de gênero no enfoque sobre as mulheres, suas atividades, suas formas de luta, suas conquistas e/ ou os arquétipos tradicionais dos tipos femininos avançando para os mais ousados, em mudanças nem sempre aceitas posto que alguns tipos ferem o reconhecido status quo.

Os debates temáticos em forma de seminários ou mesas redondas são sempre as ferramentas acadêmicas mais recorrentes. Expõem assuntos e ampliam as contribuições do público em forma de questões que se tornam problematizadas nas novas descobertas.

O lançamento de um livro expressa a maneira de prestar contas à sociedade sobre o investimento que faz, em forma de impostos, na possibilidade de os membros da academia apresentarem os resultados da aplicação desses recursos. Um livro é a síntese de um momento em que alguns assuntos foram pensados, problematizados e transformados em estudos teóricos e pesquisas, deixando de ser uma matéria isolada e pessoal para abrir-se às discussões pela comunicação pública.

 A celebração do Dia Internacional da Mulher, neste ano de 2012, pelo GEPEM/UFPA e pela Pro-Reitoria de Desenvolvimento e Gestão de Pessoal – PROGEP através Diretoria de Saúde Qualidade de Vida/Unidade SIASS/UFPA, espera dialogar com os servidores/servidoras e alunos/alunas da instituição, e com a sociedade externa à academia, usando esses meios de comunicação dos mais ilustrativos e de grande força interativa – o cinema, o seminário o lançamento de um livro  – para que possam dizer alguma coisa sobre o habitus no cotidiano feminino.

 PROGRAMAÇÃO

CINE GÊNERO

 05/03/2012


HORÁRIO: 14 às 18 h
LOCAL: Auditório do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (Campus UFPA)
TEMA: Enfoque sobre o cotidiano das mulheres trabalhadoras que têm filhos para cuidar.

FILME: UMA MÃE EM APUROS (Motherhood, EUA, 2009, 90min.) – Diretora e roteirista: Katherine Dieckmann, com: Uma Thurman, Anthony Edwards, Minnie Driver.
Sinopse: O filme se passa em um único dia na vida de Eliza Welch (Uma Thurman), escritora de ficção, mãe e blogueira, que espera dar conta de várias atividades: preparar a festa de aniversário da filha de seis anos, cuidar do filho mais novo, lutar pelo ambiente hostil de circulação da cidade, conviver com outras mães na pracinha, e desfazer equivocos de um post de sua melhor amiga. Eliza espera ainda garantir inscrição num concurso organizado por uma revista, mas para isso precisa escrever uma redação de 500 palavras sobre o sentido da maternidade para ela.

Debatedoras: Profa. Maria Angelica Motta-Maués – PPGCS/GEPEM
Profa. Maria Luzia Miranda Álvares – FCS/GEPEM
Representante da PROGEP/Diretoria de Saúde Qualidade de Vida/Unidade  SIASS/UFPA
Coordenação: Luzia Álvares

 06/03/2012

HORÁRIO: 14h as 18 h
LOCAL: Auditório do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (Campus UFPA)
TEMA: Debate sobre a violência doméstica e sexual contra as mulheres.

FILME: PELOS MEUS OLHOS (Te doy mis ojos, 2003, Espanha, 109 min.) de Iciar Bollain 
Sinopse: A jovem Pilar (Laia Marull) foge de casa com o filho, numa noite de inverno, instalando-se na casa da irmã (Candela Peña). Tem medo que o marido (Luis Tosar) a encontre, o que ocorre pouco depois. Mas ela permanece entre os familiares criando-se, inclusive, um quadro que vai mostrar quem é quem na relação. Evidenciam-se os conceitos de lar, amor e proteção confundidos com violência, dor e medo.

Debatedoras : Profa. Adelma Pimentel – PPGP - GEPEM
                        Profa. Vera Lúcia de Azevedo Lima – ICS/EPOTENA
                        Representante da PROGEP/Diretoria de Saúde Qualidade de Vida/Unidade SIASS/UFPA
Coordenadora : Profa. Adelma Pimentel

 07/03/2012

HORÁRIO: 14h as 18 h
LOCAL: Auditório do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (Campus UFPA)
TEMA: Debate sobre a relação da familia amazônica da zona rural com o sonho da melhoria de vida na zona urbana.
FILME: Ribeirinhos do Asfalto (Pará, 2011, 25 min.), de Jorane Castro.

Sinopse: Curta metragem sobre Daisy (Ana Leticia Cardoso), garota que mora na Ilha do Combu, desejosa de estudar na cidade grande (Belém). O pai se opõe. Mas a mãe (Dira Paes) acompanha a menina numa viagem de barco à capital do Estado, pensando em se abrigar na casa de uma parenta moradora do bairro da Cidade Nova. Desconhecendo a cidade, passam pelo Ver o Peso, tomam um ônibus que não as transporta para o destino objetivado, caminham com a indicação de outrem até a casa que procuram. O plano da mãe é mudar para melhor a vida da filha.
Debatedoras: Profa. Denise Machado Cardoso –PPGCS/ GEPEM
                        Profa. Edila Arnaud – PPGCS/GEPEM
                       Cineasta Jorane Castro –ICA/Curso de Cinema
                      Representante da PROGEP/Diretoria de Saúde Qualidade de Vida/Unidade SIASS/UFPA
Coordenação: Profa. Denise Machado Cardoso


08/03/2012

MANHÃ

SEMINÁRIO TEMÁTICO

Hora : - 9h30

Local : Auditório do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas/Campus do Guamá/UFPA

Tema - Mulher e Gênero: Conhecimento e Ação Política

O tema remete à reflexão sobre uma forte relação que permeia a vida universitária, entre a academia e o ativismo nas frentes onde é possivel aplicar o saber aprendido à melhoria da qualidade de vida entre os gêneros.

Expositoras: Profa. Denise Machado Cardoso – PPGCS/ GEPEM

                     Profa.  Luanna Tomaz - ICJ e GEPEM

Coordenadora: Luzia Álvares - FCS / GEPEM
Debate após as exposições.

TARDE

LANÇAMENTO DE LIVRO
Hora : 18:00 h

Local : Cinema Olympia (hall)

"Mulheres Amazônidas: Imagens-Cenários-Histórias”.

 Organizadoras: Professoras Maria Angelica Motta-Maués; Maria Luzia Miranda Álvares e  Eunice Ferreira dos Santos. Editora GEPEM, Gráfica UFPA.

O lançamento do livro demonstra o estado da arte no meio amazônico em que as relações de gênero são o estudo focal de várias temáticas problematizadas pelos/as pesquisadores/as com o olhar comprometido nas evidências do protagonismo das mulheres.

Exibição do filme "Preciosa - Uma História de Esperança" (EUA, 2009), direção de Lee Daniels. Parceira com a ACCPA e a FUMBEL.

Agradecemos a divulgação para estas atividades

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A QUESTÃO MEMÓRIA E O PATRIMÔNIO PERDIDO


Elizabeth Loftus, psicóloga da Universidade da California escreveu que “todos somos susceptíveis a lembranças de algum nível “ referindo-se aos casos chamados de “síndrome de falsas memórias”. É comum você pensar num filme ou num livro que viu/leu há muitos anos e se decepcionar com a revisão quando encontra imagens/textos diferentes. Há pouco assisti a um documentário sobre a necessidade de preservação de filmes, tarefa que o cineasta norte-americano Martin Scorsese abraçou com o seu amor pelo cinema, exaltando o trabalho de recuperação aplicado ao filme ingês “Os Sapatinhos Vermelhos”, cujo destino era a deterioração com as cores esmaecidas. Diz esse pesquisador-cineasta, endossado pelo seu colega Clint Eastwood, que boa parte dos filmes realizados antes de 1950 já se perderam. E isso nos EUA. Aqui no Brasil, o drama na área do cinema é muito maior e alguns filmes populares como “Carnaval no Fogo”(1949) não puderam ser restaurados por ausência do material gravado.
O tema “memória” cabe hoje em vários aspectos da política pública. Prédios históricos de diversas cidades do país tombam até mesmo antes de serem burocraticamente tombados. Não é só o caso dos edifícios que desabaram no Rio. Nosso centro histórico sofre na luta contra o tempo e boa parte está perdendo essa luta. Todos sabem que há necessidade de intervenção do poder público para a recuperação desses documentos de uma época, mas a lentidão de processos que providenciem reformas capazes de preservar esses tesouros do passado acaba por compartilhar com o desgaste natural que o passar dos anos oferece. E com isso propiciar falsas memórias.

Muitas pessoas incluindo-se ai gestores das cidades brasileiras acham que “não se deve perder tempo e dinheiro “com as obras do passado. Mas a História é a base de nossa cultura, é o que faz a nossa diferença, nos caracteriza e explica nossa identidade, o que fomos, como devemos fazer. Nas várias redes sociais capta-se insistentemente a célebre frase lamentando que um país sem História perde suas referências. E a riqueza do passado é às vezes desconhecida da geração presente.
Arquitetura, urbanização, artes plásticas, literatura e cinema precisam daquele olhar para trás que alguns autores, de diversas áreas acharam importante como forma de estudar o presente. No caso de Belém: a nossa cidade é conhecida como a “Cidade das Mangueiras”. Muitas dessas árvores, plantadas no inicio do século passado pelo intendente Antônio Lemos, tombam a cada período de chuvas por falta de uma política de proteção e preservação desse nosso patrimônio histórico e público. Se essas árvores têm um tempo de vida útil, se houvesse uma política real de avaliação desse nosso patrimônio integrado ao meio ambiente da cidade haveria meios de avaliar esse  período, acompanhar a infiltração de “ervas de passarinho”, a baixa qualidade de vida que acarretam os entulhos perto de suas raízes, cortes indevidos nem sempre orientados por técnicos e especialistas, sendo mais aproximados a lenhadores inescrupulosos pouco afeitos a observar os danos provocados por seus machados. Não é, portanto, um mau agouro pensar que dentro de mais alguns anos a capital paraense terá de usar outro adjetivo para fixar-se na lembrança nacional (ou internacional).

Nessa baixa dimensão da preservação do nosso patrimônio, muitos prédios do passado já desapareceram. Alguns, felizmente, sofreram reformas e se apresentam às novas gerações. Mas nem sempre o valor histórico é ressaltado por quem reforma ou pela mídia. É preciso pontuar a memória, pois a citada síndrome de falsidade pode ocorrer e um prédio antigo ser catalogado como pertencente a um período que não foi o de sua construção ou o seu auge.
Nossas ruas e travessas abertas em períodos onde existiam, por exemplo, bondes ou mesmo carruagens, entram no cenário urbano moderno apresentando as dificuldades de encaixe num tempo em que as motos tomaram a vez desses tipos de transporte. O ideal seria preservar esses espaços livrando-os do tráfego moderno, fazendo compreender que veículos dotados dos mais novos artifícios de condução precisariam de outras vertentes para chegar aos seus destinos. Se não podemos ter um metrô subterrâneo, por que não um de superfície estimulando o transporte coletivo em áreas cada vez mais estreitas ao correr de automóveis e ônibus? E os viadutos no centro? Não adianta pensar apenas em moradas distantes se a sede do trabalho de grande parte da população permanece nas áreas centrais. É preciso dar condições para o presente passar pelo passado sem afetá-lo e beneficiar a qualidade de vida dos cidadãos. O antigo e o novo teriam o mesmo efeito sem afetar o cotidiano da cidade.

As redes sociais têm circulado a denúncia da Associação dos Agentes de Patrimônio da Amazônia (ASAPAM) sobre o Palacete Vitor Maria da Silva (Veiga Cabral com Presidente Pernambuco), também conhecido como Casarão do Ferro de Engomar que está sendo vítima de “depredação e ação de meliantes que invadem seu espaço para roubar seus painéis de azulejaria criados por A. Arnoux e Boulanger & Cie”. Haverá, inclusive, no domingo, às 10 h um ato público em frente a esse prêdio para suscitar o poder público a investir em garantias a esse patrimônio.
Finalmente, penso no centenário do cinema Olympia, salvo pela Prefeitura Municipal quando seu proprietário queria transformá-lo em um espaço morto. Com processo de tombamento correndo desde 2002, pergunta-se: sobreviverá até a conclusão do processo?

(Texto originalmente publicado em "O Liberal" em 03/02/2012)

sábado, 28 de janeiro de 2012

COMUNICADO: falecimento de Cristina Bruschini

É com pesar que a Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres (SPM) da Presidência da República e o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) comunicam o falecimento da pesquisadora Maria Cristina Aranha Bruschini, 68 anos, ocorrido nesta quinta-feira, 26, em São Paulo.


Mestre em Ciências Sociais e doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), iniciou suas atividades no Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas, de São Paulo em fevereiro de 1978. Dedicou sua vida à pesquisa questão da mulher no mercado de trabalho brasileiro.

Coordenou durante muitos anos o Programa de Dotações para Pesquisa sobre Mulheres e Relações de Gênero. Teve uma forte contribuição para que a Fundação Carlos Chagas se tornasse uma referência no campo dos estudos de gênero.

O movimento de mulheres perde uma grande militante, pesquisadora incansável do cotidiano da mulher trabalhadora, cotidiano este, onde se desenrolam as mais duras lutas. O Brasil perde uma mulher guerreira que trabalhou até os últimos dias de vida lutando, por mais de 10 anos, contra um câncer que a venceu. Fica a dor e uma grande lacuna.

O LEGADO - Cristina Bruschini (como gostava de ser chamada) deixa um importante legado que entre os quais podemos destacar:

BRUSCHINI, Cristina. Sexualização das ocupações: o caso brasileiro. Cadernos de Pesquisa. São Paulo, Fundação Carlos Chagas, 1979. Mulher e trabalho: uma avaliação da década da mulher. São Paulo: Nobel; CECF, 1985; Mulher, Casa e Família: Cotidiano nas Camadas Médias Paulistanas. São Paulo: Vértice; Fundação Carlos Chagas, 1990; Sexo e Juventude: como discutir a sexualidade em casa e na escola. São Paulo: Cortez., 2000. BRUSCHINI, Cristina. Gênero e Trabalho no Brasil: novas conquistas ou persistência da discriminação? (Brasil, 1985-95). In: ROCHA, Maria I. B. da. (org.) Trabalho e Gênero – Mudanças, permanências e desafios. Campinas - São Paulo/ Editora 34/ABEP/NEPO-UNICAMP/CEDEPLAR-UFMG, 2000, pp.13-18; A situação da mulher brasileira nas últimas décadas. In: VELLOSO, João P. R. (org.). Brasil 500 Anos – Futuro, presente e passado. Rio de Janeiro, José Olympio,2000, pp.423-464; Brasil: la calidad del empleo de las mujeres. Continuidades y cambios. In: VALENZUELA, Maria E. e REINECKE, Gerhard. (eds.) ¿Más y Mejores Empleos para las Mujeres? Santiago, Chile, OIT/Oficina Internacional Del Trabajo, 2000, pp.135-192; BRUSCHINI, Cristina e LOMBARDI, Maria R. A bipolaridade do trabalho feminino no Brasil contemporâneo. Cadernos de Pesquisa, nº 110, São Paulo/Campinas, Fundação Carlos Chagas/Autores Associados, julho de 2000, pp.67-104; O trabalho da mulher nos primeiros anos da década de noventa. Anais do X Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP/Associação Brasileira de Estudos Populacionais, 1996, pp.483-516; Mulheres e homens no mercado de trabalho brasileiro: um retrato dos anos noventa. Versão brasileira do livro Les Nouvelles frontières de l’inégalité – Hommes et femmes sur le marche. BRUSCHINI, Cristina e LOMBARDI, Maria R. Banco de Dados sobre o Trabalho das Mulheres. Série Mulheres e Mercado Formal de Trabalho, Fundação Carlos Chagas [http://www.fcc.org.br], 1998. Tesauro para Estudos de Gênero e sobre Mulheres - Cristina Bruschini, Editora 34 ,1998. Cristina Bruschini & Celi Regina J. Pinto. Tempos e Lugares de Gênero, Editora 34, 2001.

“Se eu fosse dar um retrato bem objetivo, eu diria que o mercado de trabalho feminino é feito de avanços e permanências”. (Cristina Bruschini)
 
(A imagem é a capa de um dos livros organizados por Cristina Bruschini, "Entre a Virtude e o Pecado")
Comunicação Social

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A EDUCAÇÃO BÁSICA E A CIDADANIA



Uma das políticas públicas mais importantes que deve ser tomada a sério pelos governos é a educação. Alguns problemas que tendem a enfraquecer a confiança e a esperança de uma pessoa é a de não saber ler. Então, a educação básica me parece o eixo fundante de toda a auto estima gerada no ser humano contributiva dos valores que constroem o sentimento de felicidade por se reconhecer cidadão/ã.
Lembro de dois momentos que me fizeram pensar em como a condição de analfabeto é algo que causa muita dor. Nos idos de 1950, eu estava no auge do aprendizado da leitura, e essa euforia me fazia ir a todos os lugares com um livro debaixo do braço. Certo domingo, a família (a praxe da época) foi em visita à casa de compadres de meus pais que moravam num local a beira do rio. Da festa da chegada a um episódio que àquela altura não dimensionei porque desconhecia o que representava, a situação me marcou para sempre. É que no exagero de ler um conto muito emocionante do livro didático (seleta de textos de autores nacionais, “contos pátrios”), “O “Perna de Pau”, de Coelho Neto, que era o meu preferido, dei o livro à amiga da minha mãe para que esta lesse um trecho. Houve um silêncio. Eu levantei os olhos e vi-a lagrimando. Minha mãe notou o gesto e disse “Maria, lê porque a comadre não está enxergando direito”. E eu iniciei a leitura, posto que já sabia de cor a primeira frase do conto. Ao chegar em casa minha mãe me explicou que a comadre não sabia ler, fato que para uma criança àquela altura era impossível de entender. Talvez tenha sido essa a origem da minha “vocação” para o ensino.

O outro fato se deu numa pesquisa que participei do Comitê Latino-americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher - CLADEM, anos 1980, em visita a cinco cidades das microrregiões paraenses, entrevistando mulheres da zona rural sobre o entendimento delas dos termos usados na área jurídica sobre violência doméstica, como meio de conhecer a causa da baixa denúncia sobre esse problema. Numa das casas, a mulher vem alegre ao meu encontro, eu tirei os papéis da pasta e quando ia conversar com ela o marido se adiantou e disse, “dona, quem vai responder sou eu porque ela não sabe ler”. O riso triste fez com que a minha depoente abaixasse a cabeça e retornasse para dentro de casa. Contornei a situação, com medo de uma represália, chamando os dois para iniciar a conversa.
A que vêm estes relatos? Considerei oportuna esta abordagem, visto que na terça feira, ouvi o discurso do atual Ministro de Educação de privilegiar o ensino básico dando as condições para erradicar o analfabetismo. Já ouvi muito essa proposição de gestores, mas considero que sempre é possível ter esperanças porque senão perdemos a fé de erradicar também a tristeza de quem almeja ao menos participar melhor da convivência nas relações sociais, como mostram os dois fatos relatados.
Num balanço sobre a situação da taxa de analfabetismo no Brasil o IBGE apurou que entre 2000 e 2010 esta taxa caiu entre pessoas com mais de 15 anos. O ritmo menor dessa estatística está entre indivíduos de 10 a 14 anos. Nesses dados, foi detectada uma discrepância entre analfabetos homens e mulheres: se em 2009, a taxa de analfabetismo entre homens de 15 anos ou mais de idade foi de 9,8%, a das mulheres, para a mesma faixa etária, foi menor, de 9,6%, sendo que 92 6% dos analfabetos em 2009 tinham 25 anos ou mais de idade.  Em termos regionais, o Nordeste destaca-se com uma taxa na ordem de 18,7% em 2009, a maior do País. Nós, da Região Norte, estamos na segunda posição, com taxa de 10,6%, seguida do Centro-Oeste (8%), Sudeste (5,7%) e Sul (5,5%).
É possível visualizar, nos dados gerais desse instituto, que o país apresenta 14,61 milhões de analfabetos com mais de 10 anos, representando 9% da população na faixa etária. Se formos comparar essa situação a partir dos anos 1940 até 2010, verifica-se que a taxa de analfabetismo das pessoas de 15 anos ou mais no Brasil teve um decréscimo considerável, pois naquele período era de 56% as pessoas que não sabiam ler, enquanto de 2000 a 2010 essa taxa caiu de 13.6% para 9.6%, numa redução de 29%.
Em nível mundial, diz a UNESCO que dos 796 milhões de analfabetos no mundo, dois terços são mulheres, ou seja, cerca de 530 milhões são mulheres. Por esses estudos, “os analfabetos também são os mais atingidos por problemas causados pela fome e por crises econômicas”.
Retornando às evidencias de outros problemas para esse grupo iletrado, os fatos que presenciei confirmam o sofrimento de quem se vê à margem do processo de escolarização. Esse dado, por ser visto tão subjetivamente e sem condições de cálculo estatístico demonstra ser o mais cruel de todos, pois provoca a morte moral de homens e mulheres que se vêem à margem da vida, sem esperança e, principalmente, sem consciência de possuir direitos de cidadania.
(Texto originalmente publicado em "O Liberal" (PA), de 27/01/2012. A imagem que ilustra o texto é do site  http://www.experimentum.org/).

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

AS FALAS DA SUCESSÃO


Mesmo quem não está tão ligado às próximas eleições (outubro 2012), mas segue informado pelos canais da mídia desde as redes sociais virtuais às noticias da imprensa escrita e falada, sente no ar as tensões já instaladas em torno de quem estará, primeiramente, na lista de candidaturas e/ ou nos boatos, em seguida, na indicação propriamente dita ao cargo dos governos municipais. Para alguns, a marchinha carnavalesca de Haroldo Lobo e Marino Pinto (1951), “Retrato do Velho”, vai ser cantada, de certa forma, como sinônimo de reeleição. Mas, o que era dito antes com ares de certeza - “bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar”- embora não fosse visto com essa “certeza” toda porque na política esse qualificativo nem sempre é possivel – hoje, o que se observa nas versões públicas é que há mais incerteza nessa presunção, porque se o jogo político intrapartidário para recrutar uma liderança para a competição exige uma ampla perspectiva de alianças com adesos ou não aos programas do partido, há outro componente que pode alterar toda a métrica ponderada das equações e dos números das pesquisas de opinião que é a posição do eleitorado ao quadro decisório. Não é mais possivel pensar na ingenuidade deste grupo tomado como o último degrau do processo seletivo de candidaturas e responsável pelo êxito de um candidato para assumir o pódio gestor de uma cidade.
No momento, as pré-candidaturas ao cargo de prefeito das cidades do Brasil, se alinham às normativas de seus estatutos partidários e/ou aos conchavos dos líderes. Mesmo que alguns céticos e também cientistas políticos neguem o seguimento dos filiados a este instrumento oficial considerado inoperante, continuo a achar que nele, enquanto conjunto de regras que disciplinam as relações internas dos/as filiados/as, se acham normas que definem juridica e políticamente a vida orgânica desses partidos. Que podem ser obscurecidas ou não na hora de aplicá-las, mas que estão lá na certeza oficial de que deverão definir a organização de seus pares para esses eventos.

No estudo que fiz sobre recrutamento de candidaturas parlamentares, analisei 27 estatutos dos partidos que competiam em 2002. Entre os pré-requisitos para um cidadão ou cidadã brasileiro/a se tornar um candidato ou candidata, ser filiado ao partido consta das normas eleitorais, tem unanimidade estatutária e constitui um atributo fundamental na competição eleitoral. Está entre os direitos do filiado“votar e ser votado para os cargos partidários e para os cargos públicos eletivos”. Os termos variam, mas o significado é o mesmo, constando do capítulo referente aos direitos do filiado em todos os estatutos pesquisados. Mas o único que aquela altura registrava uma pré-seleção de candidatos para todos os cargos era o do PT. Primeiramente, pude observar que nessas regras o pretendente a um cargo eletivo mantém-se através de um selecionador prévio que se responsabiliza pela indicação do/a filiado/a. Este/a não se apresenta individualmente, mas deve ser uma indicação coletiva de filiados qualificados para ser aceita a indicação de seu nome pela Comissão Executiva do partido.

Através da minha análise, o PT apresenta, nos seus estatutos, um modelo de seleção de candidaturas que circula entre a indicação, a votação e a homologação (conforme teorias de autores anglo-americanos como Reuven Hazan, 2002) sendo que cada processo está centralizado nos membros filiados que detêm cargos do Diretório em níveis nacional (no caso de presidente da República), estadual ou municipal, para os quais foram eleitos, ou em Núcleos de Base municipal ou setorial. A avaliação aponta um processo que se evidencia na média inclusão (selecionadores 1 e 2) ao limite médio da maior exclusão (selecionador 3), em se tratando da posição centralizada do selecionador ou nível de democracia interna do partido. Se todos os filiados têm que contribuir para o partido e têm outros requisitos constantes de seus direitos e deveres estatutários, o mais democrático, ou o nível de maior inclusão seria que todos tivessem acesso à escolha dos que participam das listas e serão votados pelo eleitorado, uma vez que os eleitos passarão a fazer parte da bancada parlamentar ou cargo majoritário do partido.

Nesse processo de seleção de candidaturas um aspecto se evidencia: a presença das tendências que se agregam ao PT. Elas estão inscritas no Art. 233 do estatuto como "agrupamentos que estabelecem relações entre militantes para defender, no interior do partido, determinadas posições políticas não podendo assumir expressão pública e declarar-se de vida permanente"; devem solicitar registro como tendência interna do partido se não se constituem em organismo partidário (§ 2o); mas "o partido não reconhece o direito dos filiados de se organizarem em frações públicas ou privadas"(§ 4o). Contudo, um dirigente que foi entrevistado nesse período informou que as tendências se sobredeterminaram à unidade regional e apresentam candidatos para esse processo de pré-seleção.

Este enfoque pouco conhecido sobre os estatutos partidários dos que analisam o atual processo de discussão de prévias de candidaturas do PT deixa de levar em conta que essas atividades ocorrendo em cada municipio paraense para a indicação de um candidato ao cargo de prefeito estão no registro estatutário e seguem as normas para chegar a uma decisão eleitoral do quadro de votantes que são os filiados quites com as mensalidades (cf. Art. 135, pag. 26 do estatuto de 2007).

Sem dúvida, o que tem marcado os discursos dos pretendentes ao cargo nas plenárias em cada distrito, no caso de Belém e nos muncipios onde o partido pretende indicar candidatos ao cargo majoritário, é evidenciar a sua identidade enquanto militante do partido esclarecendo as potencialidades de sua gestão caso saia exitoso nas prévias. Essa é a coerência observada ao estudar partidos políticos em Angelo Panebianco (2005) que vê o risco das organizações não terem êxito em representar a força interna e externa de seus membros porque, como ele diz a racionalidade dessa associação de pessoas ao garantir influência diante do eleitorado, é mostrar o poder político que têm na sociedade.

(Texto originalmente publicado em "O Liberal" em 20/01/2012, com algumas alterações)