terça-feira, 13 de outubro de 2020

CÍRIO, OUTUBRO 2020

         Viver um “normal” diferente é a voz corrente das pessoas neste 2020, com formas de ser, metas, objetivos articulados em novos formatos. O mesmo ocorreu com o Círio de Nazaré, em Belém (PA). Uma nova maneira de participar, para alguns, reflete a presença na processão que nunca deixou de ser e estar. Como abaetetubense, ainda criança, a cada ano meus pais expressavam vontade de “neste ano vamos pro Círio”. E passava o tempo e a viagem não se concretizava porque teria que ser “a família inteira”. Não havia televisão para admirar as imagens, mas o rádio nos dava as notícias. A voz que ouvíamos (PRC-5) dizia: muita gente, muitos carros de promessas, procissão interminável, fogos, mais fogos... E nós: aonde? Meus irmãos e eu não conhecíamos a cidade de Belém, só meu pai, comerciante, que vinha mensalmente fazer suas compras de produtos nos armazéns, para a revenda aos seus fregueses. E onde é esse lugar por onde a Santa passa? É no Porto do Sal... é na 15 de Agosto... é no Largo da Pólvora... é no Largo de em Nazaré... E por ai íamos acompanhando os relatos de dois ângulos: a narração do rádio e a do meu pai explicando os locais da passagem da Santa.

Em 1953 foi o tempo do meu “novo normal”: a viagem a Belém no motor da linha (o “Pery”, de Carlos Paes), vislumbrar o ambiente da cidade, o cotidiano do internato e, finalmente, conhecer e viver o Círio. Com as Irmãs Filhas de Sant’Ana do Colégio Santa Rosa acompanhávamos a procissão, de uniforme de gala ou o tradicional do diário. Nesse dia, as normas do internato eram totalmente desconsideradas porque, cansadas, tínhamos direito a almoço diferente, à sesta, às brincadeiras que quiséssemos, fuga para os esconderijos que descobríamos, enfim, o final do dia do Círio era antológico para quem ficava no colégio sem ter parente na cidade para passar esse dia.

Outro “novo normal” de presença no Círio foi quando as minhas crianças já estavam no ponto de acompanhar a procissão. Os preparos, os medos de nos perdermos uma das outras, a sede, o sol, o cansaço estavam sempre no alerta dos outros, mas a vontade de acompanhar era tanta que nada disso era empecilho para nós. Felizes, cada momento parávamos e eu perguntava se queriam retornar para casa. Ninguém queria.

Assistir a processão passar era tradição, assim, não entra na história do “novo”. Salvo avaliarmos o lugar de onde víamos a Nazica e seu cortejo magistral – a casa dos amigos Alexandrino e Lourdes Moreira que já estão num outro plano de vida.

E neste momento um “novo normal” quebra as estruturas da tradição de mais de 200 anos de caminhada na procissão do Círio e desloca o estar físico humano da grande aglomeração do povo paraense para viver outras estratégias com vistas a desmontar a não-presença no cortejo da Nazica, mas permanecer nela de outra forma, por meio do ato de Fé. A pandemia desfez promessas, levou para outro plano milhares de romeiros, afastou a maioria dos familiares do almoço tradicional, induziu a desconfiança no sagrado, rejeitou planos e programas já delineados. Mas, este Círio, fortaleceu o poder do ser humano em si próprio, na estratégia de se manter vivo para saudar, ainda uma vez, o “carnaval devoto” de Dalcídio Jurandir naquele emblema de fé que carrega a força do povo paraense na reconfiguração dessa festa cultural, agora num plano virtual. Este “novo normal” num momento tão grave para o povo brasileiro reinventa um “novo Jesus” (se é possível dizer assim) aquele que expulsa os vendilhões do Templo ao dizer: “Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos’? No entanto, vocês fizeram dela um covil de ladrões.” As chicotadas de Jesus neste momento da homenagem à sua mãe Maria de Nazaré está aí para quem se propuser a analisar as rupturas, neste tempo do Círio, com um certo comércio que arrasta a fé para pensar valores comercializados. Pensar a força interior e se despojar dessas quinquilharias de uma cultura festiva tradicional, alavancou novos processo de análise sobre um sistema capitalista dominante neste momento de luz interior. Pensemos nesse “novo normal” que nos foi dado em função da dor, do sofrimento, da saudade, do isolamento social (para alguns/as), mas acima de tudo, da consciência sobre a reconfiguração desse suposto “sentimento religioso” empenhado em outros ângulos, menos na fé, na esperança, no amor.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

AS CAMINHADAS NO ISOLAMENTO SOCIAL

     

Arte - Ana Branco 

Cuidados. Tarefas doméstica. Horários de medicação. Leituras de notícias rápidas. WhatsApp/postagens recebidas e respondidas. Lives familiares. Lives de aniversários. Lives de programação temática. Lives de estudos. Lazer= filmes, seriados, minisséries, leituras. Isolamento social a dois = tarefas duplicadas.

Esses são alguns pontos da situação que tem sido vivida há seis meses. Algumas pessoas têm como mudar essa rotina pela lógica da necessidade de trabalhar fora de casa ou do acesso aos supermercados etc. Somos do grupo de risco e de uma classe social de servidores públicos aposentados. A sobrevivência alimentar e de medicamentos tem a aquisição de uma pessoa da família e deixados na porta do apartamento. E assim vamos vivendo, convivendo e aprendendo macetes para burlar certas rotinas que cansam e estressam. Lembrar a infância, a adolescência, o ontem nas aventuras relevantes e às vezes incômodas, outras vitoriosas, algumas que se tornaram históricas e sempre vivendo esse reviver da memória onde não deixa de pontuar a presença de pessoas queridas, que hoje estão nas caminhadas em outro plano.

O marcador geracional importa. Os/as idosos/as que receberam educação tradicional em termos de classe, raça, gênero e geração em funções sociais naturalizadas submetidas aos rigores de um sistema patriarcal que subsumia a interseccionalidade e mantinha a naturalização do olhar e o viver para a diversidade sentem o ontem se apagando conscientemente e o hoje se renovando criticamente. Alguns/as percebem que avançaram nas ousadias mesmo ainda crianças, com o olhar crítico mostrando o quanto a educação familiar, escolar e religiosa submetia o conhecimento das coisas e a vivência dos valores, alguns reconhecidos, hoje, como tão discriminadores. Outros/as permanecem no ritmo que acreditam ser um ciclo natural da vida de homens e mulheres. E os reflexos da idolatria pelas regras patriarcais tornadas tradicionais e “naturais” ampliam a interpretação de que os valores sociais são ideologias nocivas à humanidade. O caráter dessa negação do olhar crítico ao desvalor humano renega o sentimento do afeto e toma outro rumo.

Nesta atual conjuntura, o cinema tem sido mais do que companheiro, assumiu uma outra dimensão na vida a dois, embora fosse um eixo básico das conversas e reflexões sobre estética, experiências de vida, foco de captar imagens a serem preservadas. Os filmes que assistimos e alguns em revisão têm contribuído para uma outra configuração nessa arte. E as perguntas surgem: por que gostamos tanto deste ou daquele filme? A atitude dos diretores “por trás das câmeras” tem mostrado a amplitude do sistema de repressão às mulheres, aos povos indígenas, aos negros e negras, aos que são apresentados como “desviados”. E muitas vezes deixa-se de refletir sobre o impacto dessa arte tão reforçadora de comportamentos vis, perversos, sabotadores de ações humanas. Quando iniciamos as exibições no Cine Clube da então APCC sempre discutíamos, no final, o tema e a estética dos filmes. Francisco Paulo Mendes, Benedito Nunes, Orlando Teixeira da Costa, Acyr Castro e os outros cineclubistas jovens, no caso, o Vicente Cecim, José Otávio Pinto, Reinaldo Elleres, Raimundo Bezerra e outros dessa primeira fase sempre contribuíram com esses debates. Alexandrino Moreira deu a força para novos programas com filmes que não eram exibidos comercialmente, em seus cinemas 1, 2 e 3. E passamos a fortalecer a crítica ao status quo ameaçador dos valores humanos. Hoje, Marco Antonio Moreira segue construindo um forte caminho no CC-ACCPA.

Tenho assistido a uma variedade de filmes “noir” e policiais de coleções adquiridas por Pedro Veriano há algum tempo e ainda hoje. Num próximo momento vou tratar das personagens femininas nesses filmes.

O isolamento social precisa ser produtivo para sairmos mais fortes desse embate. Ansiedade, insegurança, estresse não só pelo esforço para fugir ao cansaço psicológico que tem se fortalecido também em tantas políticas de governo fascista, negacionista e genocida. A superação é difícil, mas não impossível. Vamos unir forças e ter esperanças.

 

 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

ELOMAR, 80 ANOS...ANOS DE AFETOS ....ANOS DOURADOS




Albenize, Grassy, Elomar, Amira, Luzia 

Quem disse que pensávamos em idade, aquela época? Início dos anos cinquenta, as famílias interioranas em busca de dar maior nível de escolaridade aos seus filhos e filhas, aportavam em Belém com a esperança de que fossemos recebidas nos colégios onde o Exame de Admissão ao Ginásio nos desse entrada para essa nova fase da vida escolar de pré-adolescentes. E assim esse momento da vida garantiu a um grupo de jovens meninas interioranas a inscrição ao curso ginasial em vários colégios que as recebiam em nível de internas. O então Instituto Santa Rosa foi o meu reduto durante sete anos. E de muitas outras com as quais vivíamos em comunidade.
Nesse ambiente, aprendíamos “na marra” a enxergar-nos com nossos acertos e defeitos e a equilibrar nossas emoções para sermos aceitas e, principalmente, para nos aceitarmos com as convicções que passávamos a acumular. As práticas da religião, os primeiros desejos de “liberdade”, as primeiras emoções afetivas, tudo levava a nos cercar de muitas proteções, mas o que hoje podemos ver mais nitidamente é que foram anos de aprendizado que construíram alicerces vitais para abrigar-nos de “chuvas e trovoadas”.
Este recorte da memória de um tempo tem um objetivo - traduzir-se em uma homenagem importante para uma das colegas que àquela altura dividia conosco suas saudades, seus conhecimentos, sua experiência de menina, trazida de sua terra natal, Óbidos, fortalecendo o afeto que nos unia e ainda hoje nos une. Elomar Menezes Barros, que hoje completa 80 anos. Recortes que vêm à lembrança de uma rotina que àquela altura não eram tão reconhecidos e hoje nos cercam de saudades.
Víamos a Elomar num diferencial de muitas colegas. Com um sorriso permanente, vestida nos “bibes” listados (depois verde quadriculado), se preparava para ir a aula à tarde, também interessada na boa aparência, cinturinha fina e a preocupação em não engordar. Aliás, cada uma de nós daquele grupo que frequentava o 1º ano ginasial, estávamos sempre ansiosas com a aparência física, pois, nesse horário as aulas eram ministradas pelos professores de fora. 
Do ginásio ao pedagógico aquela rotina de colegiais trazia para as conversas no pátio interno, na hora do recreio, tantas e tão intensas sensações que regulavam desde os estudos ginasiais ao planejamento “do que fazer” nos chamados “domingos de saída” (o quarto domingo do mês). Na segunda feira, nos balouços, cada uma relatava suas aventuras ou desventuras.
O recreio das internas não coincidia com a das externas. No nosso caso, o intervalo entre o almoço e o estudo formal poderia ser usado de variadas maneiras, sempre usufruído no pátio interno. Dos bancos corridos aos balouços, do “pé de Sant’Ana” aos “pés de São José”, posicionavam-se os espaços liberados para as nossas cantorias, gritarias, conversas, estudos, enfim, o que quiséssemos fazer. Era a hora de colocar para fora os gritos embutidos em muito tempo de silêncio que vivíamos ritualisticamente. Tudo sob a supervisão da mestra de vigilância. Que assistia a tudo sem levar em conta a barulheira. Salvo um certo dia em que a Mestra Emma ficou de plantão tirando o horário da Mestra Maria do Rosário. Ao ruído da palma referencial de fim do almoço a Thelma Reis deu o seu grito de guerra (tradicional) e a Mestra Emma sentada no banco retrucou: “Dona Thelma, pro castigo!” Não houve justificativa que fizesse a Mestra considerar que o erro era seu. E lá ficou a Thelma sem o recreio, sentada no banco ao seu lado. Nesse dia não houve a tradicional brincadeira do “Benjamim”: ela combinava com outra colega para ficar atenta à sua passagem com alguém de braço dado e perguntasse “aonde tu vás, Benjamim?”. A Telma respondia: “vou levar este burro pra comer capim”. Um dia a Marita Saady ficou insultada com a brincadeira.
Conviver com a externas e os professores, ter contato com o mundo de fora, aquele que era interditado pelos altos muros do colégio, tornava-se para nós uma conexão com o proibido também. Essas pessoas eram a mediação entre a informação geral, o conhecimento formal e um mundo escamoteado para nós. Se o principal objetivo de nossa vivência no internato justificava-se pela continuidade de nossos estudos visando incluir-nos num padrão de carreira profissional, a mediação com o saber era feita pelos professores que garantiam a ministração das matérias curriculares específicas, mas havia outros estágios de informação que nos eram repassados pelo convívio com as internas. Tínhamos um mundo fechado nas quatro paredes do internato que era quebrado pela informação sobre o que se passava lá fora e ao qual não tínhamos acesso salvo através das colegas externas. O cinema, as modas, os modos de ser das pessoas, o assunto político e policial, as fofocas, os costumes femininos e masculinos, o convívio urbano da metrópole era repassado para nós pelas conversas. E assim transitávamos num espaço privado em que o “espaço público” vinha até nós através da porta da comunicação e informação.
Hoje, a Elomar Menezes Barros, que vivenciou esse tempo de juventude está celebrando 80 anos. Minha admiração por ela vem desde essa época. Sua atividade no âmbito Escolar, como orientadora de várias escolas, num trabalho que faz parte do processo educacional, registra-a enquanto funcionária pública. Diz a amiga em um post particular:
“Valeu a pena. Nos tornamos profissionais responsáveis, respeitadas, mulheres/mães, mais fortes, corajosas, determinadas, ricas em experiências, sabedoria e fortalecidas pela nossa fé, com a presença de Deus em nosso coração. Agradecemos a cada manhã um dia que vivemos. Mas 80 anos é especial, completamos uma só vez. É um agradecimento a Deus que permitiu chegar até essa idade com saúde, feliz e com alegria, junto com as minhas queridas de internato e de bancos escolares. (...) Tempo bom, amizade de raiz.

É isso, Elomar, são tantos os tempos e tantas as lembranças que deixaram muita saudade. Hoje, sem seu parceiro querido, Fred Alencar, que já foi para um outro plano, você celebra a vida, o amor e a amizade. Parabéns!


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

NOTA DA ABCP SOBRE A SUB-REPRESENTAÇÃO FEMININA



Sobre as recentes declarações do Presidente do PSL, que afirma que as mulheres não teriam interesse ou vocação para a política*, cabe esclarecer que ao menos desde os anos 1960, os estudos sobre mulheres e política demonstram que a sub-representação feminina é resultado de barreiras que impedem ou dificultam sua participação. Um dos momentos principais em que essas barreiras se impõem é justamente a construção das candidaturas junto aos partidos políticos.
No Brasil, a lei que garante 30% das candidaturas para um dos sexos na lista eleitoral partidária está embasada no reconhecimento de que a sub-representação das mulheres é uma injustiça. Elas são a maioria do eleitorado, mas têm sido deixadas de fora dos espaços em que são tomadas as decisões que as atingem diretamente. O Brasil é hoje um caso extremo, sendo um dos países do continente americano em que as mulheres têm menor acesso aos espaços decisórios, sejam eles cargos eletivos ou nomeações de primeiro escalão, como ministérios ou secretarias nos estados e municípios.
Só o preconceito, aliado à desinformação, explica que o presidente de um partido que tem hoje expressão nacional ignore que a sub-representação feminina nada tem a ver com disposições naturais, mas resulta de constrangimentos institucionais, sociais e culturais.



terça-feira, 20 de novembro de 2018

CONSCIÊNCIA NEGRA



O Dia Nacional da Consciência Negra celebrada hoje, 20 de novembro, foi criado pelo Projeto-Lei número 10.639, no dia 9 de janeiro de 2003 (Art. 79-B), estabelecendo “as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir, no currículo oficial da Rede de Ensino, a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira" (...)”. Nesse dia, no ano de 1695, morrera Zumbi dos Palmares, o líder e chefe do mais famoso quilombo da história da escravidão no Brasil. A sua morte, resistindo contra o opressor branco, marcou a luta pela emancipação de uma etnia imposta como escrava no Brasil desde os primórdios da colônia portuguesa na América.
A escravatura existiu desde guerra, escravizados por dívida, por pirataria ou por mau comportamento a origem da civilização. Tratava-se de povos conquistados, prisioneiros de cívico, com evidências ainda àqueles com características físicas e de língua diferente dos conquistadores.
Em termos de Brasil, a escravidão iniciou-se na primeira metade do século XVI, com a produção de açúcar. Os colonizadores portugueses capturando os negros nas suas colônias na África utilizava-os no trabalho nos engenhos de açúcar no Nordeste. Comerciantes de escravos, mercadoria humana, escolhas entre os sadios, condições desumanas, mortes e submissão aos grilhões de ferro nos porões fétidos dos navios negreiros e/ ou quando nas senzalas eram acorrentados para evitar as fugas e submetidos a torturas físicas são evidências de um passado infausto desse povo cuja vida marcou a sua presença desde o Brasil Colônia. A história desse período é um dos mais cruéis momentos da humanidade e deste país. Da compra da liberdade por alguns, no Século do Ouro (XVIII) e da resistência política de outros, esse povo conseguiu manter sua cultura, exercitar seus rituais e falar sua própria língua ao organizar comunidades de quilombos.
Isto quer dizer que a abolição da escravatura tão festejada não foi algo dado para eles. Eles lutaram para chegar até ela. Historicamente se desenvolveu com a transição da Corte Portuguesa para o país e do Tratado de Aliança e Amizade de 1810, época em que o príncipe regente se comprometeu com a Inglaterra a abolir o tráfico negreiro. Esse tráfico só foi extinto quarenta anos depois, com a aprovação da Lei Eusébio de Queiroz e teve como reflexo a redução gradual da escravidão. Nessa época, o mundo conhecia as primeiras teorias cientificas de base racista. Surgiu, por exemplo, o “darwinismo social” e, no Brasil, começou a “preocupação com o branqueamento da população”. Essa ideia que se desdobrava entre a radicalização da diferença étnica, afinal um dos fatores da teoria nazista, e o estimulo à miscigenação como um meio de “diluir a cor negra”, caminhou com seu flagrante confronto na aceitação dos filhos de proprietários de terra com suas escravas. Segundo a professora Mary Del Priore em um artigo denominado “Entre a Casa e a Rua” (Revista “Aventura na História”/Ed. Abril), o conde Suzanet ,em 1825, afirmava que “as mulheres brasileiras (...) casavam-se cedo, logo se transformando, pelos primeiros partos, perdendo os poucos atrativos (...) e os maridos apressavam-se em substituí-las por escravas”. Mas sabe-se que não era só assim. Estas escravas eram estupradas, algumas mortas e a convivência com as “matronas” brancas submetia-as a uma outra forma de opressão e castigo por parte destas que se vingavam ao se sentirem em segundo plano na base de sedução do marido.
O livro “A Cabana do Pai Tomás”(escrito em forma de série, de 1850 a 1852) da escritora, filantropa e antiescravagista Harriet Beecher-Stowe teve ampla repercussão no processo de abolição da escravatura na América do Norte. Há versões de que ele ajudou na declaração da Guerra da Secessão rebelando, naquele país, o sul escravocrata. A autora foi uma das fundadoras do Partido Republicano que abraçou a causa do abolicionismo e o livro, por ser impulsionador da liberdade étnica, foi muito lido pelos donos de escravos, inclusive no Brasil. As mulheres desses comerciantes & industriais, especialmente na zona rural, tinham “A Cabana...” como leitura predileta. Isso valeu uma citação no romance “Sinhá Moça”(1950), de Maria Dezone Pacheco Fernandes, uma visão romântica do abolicionismo.
Mas, sabe-se que não foi fácil extinguir o estigma da escravidão a partir de um juízo de graus de etnia. O movimento abolicionista surgiu com o Iluminismo no século XVIII. O legado brasileiro da emancipação do negro contou com a colaboração de nomes famosos nas artes e letras. O poeta baiano Castro Alves chegou a bradar: “Não pode ser escravo/ quem nasceu no solo bravo/da brasileira região”. O pernambucano Joaquim Nabuco impulsionado pela experiência na infância, com escravos, lançou a obra “O Abolicionismo”, em 1883. José do Patrocínio, filho de um padre com uma negra, fez campanha contra a escravidão ao lado de Ruy Barbosa, Teodoro Sampaio, Aristides Lobo, André Rebouças e outros. Mesmo assim, com tantos nomes de vulto, inclusive políticos, dedicados ao abolicionismo, o Brasil foi o país que mais demorou em libertar oficialmente escravos. Havia forte pressão, especialmente dos proprietários sediados no campo. D. Pedro II temia um quadro bélico semelhante ao que aconteceu na América do Norte do governo Lincoln. Mas a Câmara era a favor da lei que afinal foi assinada pela filha de D. Pedro, a princesa Isabel, na sua fase de governante provisória em 1888.
Evidenciar o processo escravo e eliminá-lo das injunções econômicas através de leis e decretos foi um aspecto da luta pela libertação dos negros. O outro foi e tem sido introduzir a questão como elemento de conscientização antirracista, haja vista que desde muito, em especial do século XVII a XIX na Europa e no Brasil houve forte presença das teorias raciais com base cientifica demonstrativas da essencialidade do fenótipo africano onde a negrura era uma evidencia da degeneração da raça humana.
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) patrocinou um conjunto de pesquisas sobre as relações raciais no Brasil, no inicio da década de 1950. Este projeto associava-se à agenda antirracista dessa instituição internacional que desde o final dos anos quarenta, estava impactada pela Segunda Guerra Mundial, quando o nazismo estimulou a grave exacerbação da degenerescência da mestiçagem humana pelo cientificismo sobre a raça ariana. Como aquela altura o Brasil apresentava imagem positiva em termos de relações inter-raciais se comparado aos EUA e o apartheid da África do Sul, este país se tornava um “laboratório” para "determinar os fatores econômicos, sociais, políticos, culturais e psicológicos favoráveis ou desfavoráveis à existência de relações harmoniosas entre raças e grupos étnicos".
Mas essa questão também era política e existencial para intelectuais negros organizados no período. Experiências mobilizadoras traduziram o outro lado da situação vindo dos movimentos negros que  se formavam no país alguns encabeçados por esses personagens.
A promulgação da Constituição de 1988 marcando o período de redemocratização do Brasil apontou para as demandas de discussões e de avanços nas decisões políticas reivindicadas pelos vários segmentos da sociedade, os movimentos sociais e o Movimento Negro. Assim, “A lei de preconceito de raça ou cor (nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989) e leis como a de cotas raciais, no âmbito da educação superior, e, especificamente na área da educação básica, a lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que instituiu a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-brasileira, são exemplos de legislações que preveem certa reparação aos danos sofridos pela população negra na história do Brasil” (http://www.brasilescola.com/ ).
Hoje a luta pelas rupturas do preconceito racial tem várias vertentes. E ainda há luta pela extinção do preconceito racial. Se Affonso Arinos lançou a lei que considera crime o racismo, muitos outros processos se institucionalizaram para a subversão das crime o racismo e muitos espaços como as universidades abrem vagas para negros e negras, a inserção no mercado de trabalho e valorização da cultura, a luta pela consciência do povo negro por sua identidade tem sido uma forma de militância dos grupos constituídos por agendas de demandas pelos direitos humanos.

quinta-feira, 30 de março de 2017

UMA CARTA : SEXO CASUAL SEM ESPAÇO DE ILUSÃO




Recebi esta carta para publicar no blog. Achei importante o tema. Para este período de celebração do Dia da Mulher. 
Maria Maria

Você é minha namorada, minha mulher
minha amante e, principalmente,
minha amiga!

Essas palavras me falaram de um jeito que eu não me achava capaz de atrair. Elas tocaram fundo no coração de uma mulher que se achava tímida e insegura, há poucos anos saída de um casamento do qual a sexualidade já se havia retirado bem antes. Profissional bem-sucedida, muito bem com seu corpo, porém mal resolvida nas questões do afeto, do amor romântico e do sexo. Eu me permito curtir novidades da vida, procurando manter na medida do possível as rédeas da situação. Sei bem que nada está sob controle. A prova, o “romance” que vivi.
Compareceu na minha vida uma presença nova. Uma voz se tornou habitual durante quase três semanas. Era a voz de um homem de mais de sessenta anos, dizendo-se viúvo, microempresário, que conheci em uma rede de relacionamentos. Afinal, na minha idade, encontros são raríssimos, acho até que não existem, pois, os homens nessa faixa preferem mulheres mais jovens. Insistindo, contudo, nesse desejo, procurei a rede. Quem sabe, iria encontrar um chéri, como diz um amigo francês. Mesmo se breve, mesmo se sem qualquer compromisso, queria uma troca de amor, uma comunicação de corpo e, quem sabe, de alma.
Resolvi compartilhar essa história, porque talvez haja outras - ou outros -como eu, tateando nessa busca. No meu caso, desafiei o padrão de espera e recato. Mas, também, acabei por conhecer outro padrão social. Experimentei o sexo casual. No português sem rodeios, fui para a cama e, no após, virei coisa a se desvencilhar. Sexo casual é terra incógnita para uma mulher com uma história comum como a minha. Entrei sem manual de instruções, tipo adolescente mesmo.
As palavras quase mágicas – “amante, amiga, mulher” - ficaram gravadas no áudio do whatsapp. Pareciam prometer uma relação profunda, mesmo se breve, entre duas almas encontradas dias antes, no acaso de uma rede de relacionamentos. Hoje em dia, para mim, o tempo não conta muito, mas sim a intensidade dos momentos. Momentos podem ter suas eternidades. E, diante das conversas trocadas com aquele homem, permeadas de admiração, bom humor, carinhos, as últimas amarras que o medo do desconhecido me impunha, se soltaram de vez. Controles já meio frouxos... cederam.
Ao ouvir a mensagem no zap, logo digitei minha gratidão, especialmente pela jura da amizade, mas, também, por um amor que se desenhava sem cobranças, no qual não entrava posse, muito menos interesse nos haveres do outro. Sim, a promessa da liberdade mútua. E entre amigos amantes! Que auge!
As palavras certeiras me encantaram; entendi a famosa imagem do cupido e sua flecha. E, portanto, não percebi sinais contrários que ele me dava, tal como o pouco interesse em saber de mim. E, também, não estranhei o convite para “fazer amor” já no segundo encontro. Ele mesmo uma vez me corrigiu, quando usei a palavra transar, pois era amor que ele queria, não transa!
        Fui para o encontro combinado sem disfarces. Vestido colorido, brincos, pouca maquiagem. Decidida, me ofereci por inteiro, sem reprimir a vontade dele e a minha, mesmo consciente de que eu jamais estaria à vontade no primeiro encontro de amor. Eu estava disposta a passar a experiência da primeira vez com alguém que eu praticamente não conhecia. Para mim, o mais importante não seria o primeiro encontro, tenso, mas sim os próximos... Naquela noite eu estava alegremente exorcizando fantasmas da minha história de mulher que se achava sem atrativo, sem desejo e sem ser desejada... inábil no sexo. Jamais “gostosa”! Não precisei de bebida e disso estava orgulhosa. Queria mostrar meu corpo! Na verdade, eu não estava entregando nada. Eu achava estar compartilhando.
        Num certo momento eu percebi – que estranho! - que a preocupação dele era ser “eficiente”, queria me provocar prazer a todo custo. Como se precisasse me mostrar, ou mostrar para si mesmo, que era bom de cama! Para mim não era esse o maior atrativo! Eu até preferiria uma primeira noite só de carinhos, abraços e beijos. Sei que o meu prazer pleno viria com o tempo. Mas eu joguei bem o jogo da cama, fiz e consenti, sem vergonha ou culpa, pensando ser essa a regra a seguir. Eu pensava que no sexo estava expressando o sublime do amor maduro, ainda que ao preço de eu não relaxar de cara. Mas cumpria o que eu achava que devia. E suportei aquele homem que procurava eficiência nos gestos e movimentos. Hoje sei que era ato, não afeto. Era instrumentalidade, não encontro. Talvez ele mereça receber seu troféu nessa seara.
Após o sexo esperei ouvir sobre próximos encontros, um cinema, um jantar... Eles não vieram. Logo ele tinha de voltar ao trabalho. Vamos lá então! Era eu a motorista e o conduzi de volta. Ainda tão cedo de noite. Ele me procuraria, sem fixar quando. E não me conscientizei logo do fato de que a “nossa noite” foi brevíssima, no intervalo do trabalho dele, em um quarto de motel sem adereços. Tudo foi rude. A começar pelo quarto limpo, mas frio, apenas funcional.
Minha maior asneira, comigo mesma, foi aceitar sexo sem prevenção. Estúpida! Assumir comportamento de risco nessa idade! Eu achava que devia agradar para ser aceita. E aí abri uma brecha por causa de meus próprios carecimentos. Permiti, para ser aceita! Talvez até esse comportamento me tenha desvalorizado perante ele. Que fácil! Minhas fantasias de amor não eram as suas. Hoje eu tenho um conselho, se alguém precisar: se estiver carente, não entre em rede de relacionamentos! E, sobretudo, não acredite no interlocutor até mil provas em contrário.
        Após o encontro “quente”, mas seco, voltei para casa. Sensações bizarras. O vazio tomou o lugar da alegria. Que encontro foi aquele? Os telefonemas sumiriam em menos de dois dias. Participei de sexo casual, só carnal. Todos os ditos, imagens, risos, eram apenas preliminares para o sexo pelo sexo. Talvez a paga que ele não queria fazer para uma profissional.
Para onde vão as palavras? Especialmente as ditas com maestria quase poética? Eu nunca consigo dizer com tanta habilidade para um outro, o que não sinto. É como se diminuísse uma parte de mim... Tanto que não cheguei a chama-lo de “amor” como ele fez quase de imediato... É, essa história parece texto repisado, enredo pré-fabricado. Encontrei um expert nesse roteiro de atrair, “comer” e largar.
Consciente do que ocorrera, três dias depois liguei para o ex-amante, ex-namorado e ex-amigo. Eu queria conversar sobre seus exames de saúde, que ele me dissera ter feito. Buscava aplacar o medo que tomou o lugar do encanto. Mas, quando ele finalmente se dignou a atender, não me ouviu, foi grosseiro, dizendo-se ocupado no trabalho. Que entonação estranha! Quase violento quem tinha entrado no meu coração sem pedir licença e me elevado: você é tudo de bom... dito quase à exaustão.
Enquanto o ouvia ao telefone, vi num relance minha história, conquistas, meus anos de estudo, minha independência financeira... Me perguntei, por que estou ouvindo isso? Engoli a fala. Ele estava me arrogando um papel: o de mulher pegando no pé, cobrando amor, cobrando sei lá o que... Descartada. Acabou-se aí qualquer nova tentativa de contato. Tudo que eu faria depois para digerir esse desencontro, seria por mim mesma, com meus próprios recursos.
        Este é só um velho exemplo do cair no conto do amor? É um exemplo, sim. Mas acho que tem um aspecto a mais. Casos assim dizem sobre nossa contínua capacidade para o mal. Mal, por transformamos um dos encontros mais intensos de que somos capazes como seres humanos, a expressão sexual do amor, em ato só material, entre sujeito e objeto.
Chocou-me não ouvir uma gratidão por momentos que, de algum modo, tiveram belezas. Por que não um café para conversar como adultos civilizados? E, então, agradecer? E, depois, cada um seguir seu caminho? Acho que não fazem parte do script no qual toda a cena se inscreve. O script deve terminar com a vitória do macho que abateu a caça. Pensando bem, é pseudo-vitória. Relações desse tipo nos empobrecem a todos. São instrumentais. Parceiros sexuais não são coisas. Eu não estava buscando compromisso nem conto de fadas. Achei uma relação pessoal em que a pessoa não precisa estar.  
A ausência de empatia me leva a pensar que meu parceiro tem um quê de psicopatia. Ele tem seus tormentos e traumas, pois se permite prazer em contatos truncados e emoções distorcidas. Faz de sua inteligência de sedutor uma embalagem vazia. Não lhe guardo rancor. É uma pessoa enredada nas teias de relações mais indigentes de nosso meio. Vive o velho presente.
Este caso reflete um machismo que consagra o sexo como necessidade do homem e desvalor da mulher. Padrão antiquíssimo. As formas do machismo podem ter se abrandado, mas os sentidos permanecem. Sei que tenho um privilégio de poder viver essa história sem a mesma sujeição de mulheres de gerações passadas. Graças, em parte, à crítica feminista da nossa ordem social.  
Não entrei na história como vítima. Ter chegado lá, por certo, decorre das minhas próprias dificuldades, inseguranças, meus fantasmas. Queria ter a autoconfiança e o amor próprio de algumas de minhas melhores amigas. Bravas e independentes. E, por isso, me coloquei nessa posição de encontrar pessoas frágeis também, atormentadas que precisam de sexo para aplacar não sei quantas necessidades.
De um lado, errei feio. Relaxei controles. Mas, de outro lado, acho que é preciso falar sobre as muitas manifestações do machismo e como resistir. Especialmente, o que se dá nos contatos mais íntimos, entre quatro paredes, de onde se pode “quase tocar o céu”. Querendo encontrar um outro em plenitude, topei com a degradação humana. Naquele momento eu dei a ele o que achava lindo de mim. Mas, no texto, eu figurava como objeto.
Mais que nunca, é preciso exercitar a frase batida: gostar de si em primeiro lugar. É condição para bem gostar do outro. Um gostar não egoístico, solidário. Meu ex não gosta de si, não pode gostar do outro. O outro é peça. Nessa perspectiva, é possível pensar que o machismo é, no plano da cultura, a consolidação desse desamor pessoal. As relações de gênero que abrigam dominação e sujeição se estabelecem com base no desamor original.
Sexo casual, não importa a idade, é empresa arriscada.  E, quanto mais idade temos, menos tempo de aprender a se virar nesse meio sem empenhar a autonomia. Por isso eu quis escrever essa minha história. Sei que a trama é conhecida. Mas tenho certeza de que ainda não tiramos todas as suas lições.  E continuamos em busca de amor, em qualquer idade.


Obs. Imagem extraída de https://mejorconsalud.com/sexo-casual 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

PARA ALÉM DO “FAÇA ACONTECER”: POR UM FEMINISMO DOS 99% E UMA GREVE INTERNACIONAL MILITANTE EM 8 DE MARÇO


Por Angela Davis, Cinzia Arruzza, Keeanga-Yamahtta Taylor, Linda Martín Alcoff, Nancy Fraser, Tithi Bhattacharya e Rasmea Yousef Odeh.


As grandes marchas de mulheres de 21 de janeiro [nos Estados Unidos] podem marcar o início de uma nova onda de luta feminista militante. Mas qual será exatamente seu foco? Em nossa opinião, não basta se opor a Trump e suas políticas agressivamente misóginas, homofóbicas, transfóbicas e racistas. Também precisamos alvejar o ataque neoliberal em curso sobre os direitos sociais e trabalhistas. Enquanto a misoginia flagrante de Trump foi o gatilho imediato para a resposta maciça em 21 de janeiro, o ataque às mulheres (e todos os trabalhadores) há muito antecede a sua administração. As condições de vida das mulheres, especialmente as das mulheres de cor e as trabalhadoras, desempregadas e migrantes, têm-se deteriorado de forma constante nos últimos 30 anos, graças à financeirização e à globalização empresarial. O feminismo do “faça acontecer”* e outras variantes do feminismo empresarial falharam para a esmagadora maioria de nós, que não têm acesso à autopromoção e ao avanço individual e cujas condições de vida só podem ser melhoradas através de políticas que defendam a reprodução social, a justiça reprodutiva segura e garanta direitos trabalhistas. Como vemos, a nova onda de mobilização das mulheres deve abordar todas essas preocupações de forma frontal. Deve ser um feminismo para 99% das pessoas.
O tipo de feminismo que buscamos já está emergindo internacionalmente, em lutas em todo o mundo: desde a greve das mulheres na Polônia contra a proibição do aborto até as greves e marchas de mulheres na América Latina contra a violência masculina; da grande manifestação das mulheres de novembro passado na Itália aos protestos e greve das mulheres em defesa dos direitos reprodutivos na Coréia do Sul e na Irlanda. O que é impressionante nessas mobilizações é que várias delas combinaram lutas contra a violência masculina com oposição à informalização do trabalho e à desigualdade salarial, ao mesmo tempo em que se opõem as políticas de homofobia, transfobia e xenofobia. Juntas, eles anunciam um novo movimento feminista internacional com uma agenda expandida – ao mesmo tempo anti-racista, anti-imperialista, anti-heterossexista e anti-neoliberal.
Queremos contribuir para o desenvolvimento deste novo movimento feminista mais expansivo.
Como primeiro passo, propomos ajudar a construir uma greve internacional contra a violência masculina e na defesa dos direitos reprodutivos no dia 8 de março. Nisto, nós nos juntamos com grupos feministas de cerca de trinta países que têm convocado tal greve. A ideia é mobilizar mulheres, incluindo mulheres trans, e todos os que as apoiam num dia internacional de luta – um dia de greves, marchas e bloqueios de estradas, pontes e praças; abstenção do trabalho doméstico, de cuidados e sexual; boicote e denuncia de políticos e empresas misóginas, greves em instituições educacionais. Essas ações visam visibilizar as necessidades e aspirações que o feminismo do “faça acontecer” ignorou: as mulheres no mercado de trabalho formal, as que trabalham na esfera da reprodução social e dos cuidados e as desempregadas e precárias.
Ao abraçar um feminismo para os 99%, inspiramo-nos na coalizão argentina Ni Una Menos. A violência contra as mulheres, como elas a definem, tem muitas facetas: é a violência doméstica, mas também a violência do mercado, da dívida, das relações de propriedade capitalistas e do Estado; a violência das políticas discriminatórias contra as mulheres lésbicas, trans e queer, a violência da criminalização estatal dos movimentos migratórios, a violência do encarceramento em massa e a violência institucional contra os corpos das mulheres através da proibição do aborto e da falta de acesso a cuidados de saúde e aborto gratuitos. Sua perspectiva informa a nossa determinação de opormo-nos aos ataques institucionais, políticos, culturais e econômicos contra mulheres muçulmanas e migrantes, contra as mulheres de cor e as mulheres trabalhadoras e desempregadas, contra mulheres lésbicas, gênero não-binário e trans-mulheres.
As marchas de mulheres de 21 de janeiro mostraram que nos Estados Unidos também um novo movimento feminista pode estar em construção. É importante não perder impulso. Juntemo-nos em 8 de março para fazer greves, atos, marchas e protestos. Usemos a ocasião deste dia internacional de ação para acertar as contas com o feminismo do “faça acontecer” e construir em seu lugar um feminismo para os 99%, um feminismo de base, anticapitalista; um feminismo solidário com as trabalhadoras, suas famílias e aliados em todo o mundo.
Nota:
* “Faça acontecer” [Lean-in] é uma referência ao movimento inspirado no livro de Sheryl Sandberg, Lean in: Women, work, and the will to lead (New York: Random House, 2013. Versão em português Faça acontecer: mulheres, trabalho e a vontade de liderar. São Paulo: Companhia das Letras, 2013). A principal característica do movimento é a ênfase no empreendedorismo feminino (N. Da T.).
Cf.