Ainda criança, acompanhava o movimento
político da minha cidade, Abaetetuba. Meus pais eram líderes de ativismos
variados, quer religioso, quer partidário e então, a família toda ia junto
“pedir” recursos para as festividades, no primeiro caso, e voto para os candidatos
em época de eleição, no segundo. Desse tempo lembro os comícios em praça
pública, das caminhadas em montaria pelos rios que margeavam a cidade,
procurando sensibilizar o eleitorado para o nosso candidato, pela oratória da
minha mãe, ela uma autêntica líder. A ênfase maior era para os candidatos ao
cargo majoritário, prefeito, governador e presidente da república. As
animosidades partidárias se cruzavam nos célebres foguetes de assobio quando
uns e outros se estavam no espaço público (preferencialmente em comícios). O
mais aguerrido dos embates foi em 1950, na eleição municipal de Joaquim Mendes
Contente, da coligação, contra Pedro Pinheiro Paes, do PSD, ao cargo de
prefeito, na estadual, Magalhães Barata contra Zacarias de Assumpção, ao
governo do Estado, e à presidência, Getúlio Vargas, contra Cristiano Machado,
Eduardo Gomes, entre outros. Nesses casos, os correligionários se integravam na
estratégia de convencimento do eleitorado mostrando aos interlocutores os
motivos de se votar neste e não naquele candidato.
Ao longo dos anos
eleitorais essas estratégias foram mudando, deslocando-se do simples
“tête-a-tête”, embora este ainda seja usado com frequência havendo hoje um padrão legal normatizado pelo
TSE. Contudo, as invenções de acesso ao eleitor/a para atingir a meta de êxito seja/esteja
ancorada em qualquer aspecto de sedução. Candidatos/as mantém o corpo-a-corpo
como meio de visibilizar a si próprios, procurando o contato direto com o
público, não só com o eleitor, mas com os formadores de opinião. Também os do
seu grupo político exploram esse contato diário com a população, principalmente
agora com a facilidade do uso das redes sociais e a divulgação maciça de
imagens de todos os tipos e formas desde o célebre “santinho” aos “posts” com indicação
da agenda dos candidatos/as sobre os locais aonde serão oferecidas as informações
a propósito de um programa de gestão a ser aplicado na cidade pelo concorrente
exitoso, conforme as demandas colhidas em pesquisas, em denúncias de
fragilidade da administração em vigor.
O enredo
da campanha exige um discurso de metas do/a futuro/a gestor (e/ou parlamentar) que
deve apresentar-se colado à imagem do/a candidato/a e, com isso, demonstrar
aonde se acham os diferenciais entre eles/as. Em uma pesquisa realizada em 2002
(tese de doutorado) o script de questões privilegiou
os temas recorrentes observados num programa de campanha eleitoral geralmente
acompanhando o tom das demandas públicas. O resultado da observação delineou um
quadro de questões repetitivas nos percentuais oferecidos, com os/as candidatos/as
apostando na confiança emanada de suas figuras em aparições na mídia ou em
conversa face-to-face com o
eleitorado. Nessa perspectiva, saúde, educação, segurança, emprego e renda, por
serem políticas de demanda inesgotável entre a população que vota, conduziram a
maior opção entre os que estavam à procura de cargos. A diferença era o vigor
da confiabilidade daquele que verbalizava o programa. Verificou-se que o
enfoque sobre as questões da Amazônia (a luta contra a pauperização da região
com a exploração mineral pelos grandes projetos) foi mais bem colocado que o
relativo à soberania nacional (a preocupação com o processo de globalização).
Difundir este enredo programático é
outro fator que passa pela experiência dos que estão na competição e desejam
seduzir. Qual o melhor meio de veiculação do programa e das imagens pessoais
que poderiam ser responsáveis pela repercussão do valor dos/as candidatos/as
com reflexos na urna eletrônica? As principais estratégias de campanha que
os/as candidatos/as julgaram ter mais eficácia para seduzir o eleitorado a
votar em seu nome e o chamariz de voto recaíram
no corpo-a-corpo. Os dois outros recursos ficaram no uso da mídia e na criação
do marketing político para promoção da imagem pessoal. Não houve profundas
diferenças nos percentuais entre homens e mulheres, podendo ser uma explicação,
a luta eleitoral mais que o conflito de gênero pela conquista do eleitorado.
Neste estágio da competição eleitoral,
num sistema em que o voto personalizado privilegia o ator individual (os/as
candidatos/as) e não o ator coletivo (partidos), o modelo explicativo envolve
dois principais atores: o eleitor médio e o/a candidato/a. Enquanto o primeiro,
para escolher o/a candidato/a terá que obter uma quantidade de informações
necessárias à sua decisão, o candidato/a vai ter que suprir as necessidades
deste eleitor para obter o voto de que precisa para eleger-se ao cargo
esperado. O nível de racionalidade de um tomador de decisão na arena política
passa, necessariamente, pela quantidade de informação que este recebe e os
custos para obtê-la num mundo de incertezas (cf.Antony Down). Para uma decisão
racional, a posição do eleitor seria: a) ter conhecimento sobre as metas do/a
candidato/a; b) saber como vai alcançá-las; c) e caso ele escolha a ou b,
saber quais as conseqüências prováveis. Para isto, ele precisa de conhecimento contextual e da informação nos três estágios da
pré-escolha e como um e outro são dispendiosos, podem ser tratados como
informação.
As metas do/a candidato/a esperam ser asseguradas pela forma de
transferir as informações, tanto do enredo programático quanto da
confiabilidade da sua imagem a este eleitor médio. Daí considerar entre as
estratégias de campanha o contato face-to-face
(o corpo-a-corpo) por ser o mais seguro para a transferência da imagem, pois é
possível gerar a confiança desejada.
(Texto originalmente publicado em "O Liberal" de 28/09/2012)
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