sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

OS 16 DIAS DE ATIVISMO


“Compromisso e atitude - Lei Maria da Penha – a lei é mais forte”, foi o tema escolhido para a mobilização da sociedade brasileira, neste ano, incorporando-se aos mais de 100 países adesos à causa levantada pela Campanha “16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres”. No Brasil iniciou-se no dia 20 de novembro, com a incorporação do Dia da Consciência Negra, e termina em 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

Mas, a que veio esta manifestação pública? A campanha foi lançada em 1991, por 23 mulheres de diferentes países reunidas pelo Centro de Liderança Global (Center for Women’s Global Leadership - CWGL), com o objetivo de promover o debate e denunciar as várias formas de violência contra as mulheres no mundo. O marco do período consta da inclusão de datas significativas e históricas da luta das mulheres e movimentos sociais pelo fim da violência e a quebra dos silêncios das vítimas que geralmente acompanham as atitudes criminosas contra elas. A antecipação da campanha no Brasil, para o dia 20 de novembro – Dia Nacional da Consciência Negra – inscreve-se pelo reconhecimento histórico da discriminação contra a população negra e, em especial, as mulheres negras brasileiras cujas vidas têm sido marcadas pela opressão de gênero, raça e classe social. A data refere-se ao dia 20 de novembro de 1695, dia em que foi assassinado Zumbi dos Palmares, líder quilombola nascido em 1655, em Alagoas, e que se tornou ícone da resistência negra ao escravismo e da luta pela liberdade.

O dia 25 de novembro foi declarado, pelo I Encontro Feminista da América Latina e Caribe, em 1981(e adotado pela ONU em 1999), como o Dia Internacional de Não Violência Contra as Mulheres  – em homenagem às irmãs Mirabal, opositoras da ditadura de Rafael Leônidas Trujillo, na República Dominicana. Minerva, Pátria e Maria Tereza, mais conhecidas como “Las Mariposas”, foram brutalmente assassinadas nesse dia, em 1960.

A outra data marcada pelas manifestações, nesses 16 dias, é 1° de dezembroDia Mundial do Combate a AIDS. O objetivo é estimular a prevenção e diminuir a disseminação do vírus HIV. O centramento nas mulheres tende a mostrar estatísticas, de 1980, reveladoras do crescimento de casos de mulheres contaminadas, inclusive no Brasil. Esse fato levou o governo federal brasileiro a lançar o Plano de Enfrentamento da Feminização da AIDS e outras DST.  No último Boletim Epidemiológico (ano base de 2010), foram notificados (pelo Sinam, SIM, Siscel/Siclom) 608.230 casos de AIDS acumulados de 1980 a junho de 2011, sendo 397.662 (65,4%) no sexo masculino e 210.538 (34,6%) no feminino (Boletim Mapeamento da Situação...).

O dia 6 de dezembro evidencia o Massacre de Mulheres de Montreal (Canadá) em 1989, quando 14 estudantes da Escola Politécnica de Montreal foram assassinadas. Esse fato se tornou símbolo da injustiça contra as mulheres, inspirando a criação da Campanha do Laço Branco, por um grupo de homens que decidiu se organizar para dizer que existem homens que cometem tais atos, mas existem aqueles que repudiam essa atitude, e elegeram o laço branco como símbolo. Com isso, deu-se a mobilização mundial de homens pelo fim da violência contra as mulheres. No Brasil, a partir de 2007, é o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres (Lei n° 11.489, de 20/06/2007).

E o final da campanha do ativismo está centrado no dia 10 de dezembro – Dia Internacional dos Direitos Humanos. Nesse dia, em 1948, foi adotada, pela Organização das Nações Unidas (ONU), a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em resposta à violência da Segunda Guerra Mundial. Subsequente, os artigos da Declaração tenderam à fundamentação de inúmeros tratados e dispositivos como proteção dos diretos fundamentais. Em 1993, o movimento feminista passou a questionar a forma de tratamento dado às mulheres e na “Conferência de Direitos Humanos em Viena (1993) reiterou o proposto no documento da referida Conferência, mediante o reconhecimento dos direitos das mulheres e das meninas como direitos humanos universais. Assim, essa data recorre à crítica ao antigo jargão “briga de marido e mulher não se mete a colher” que para o movimento definia-se como apoio á violência doméstica, sendo uma violação aos direitos humanos das mulheres.

Como se vê, são datas que operam na vigilância às leis de proteção à qualidade de vida das mulheres, leis conquistadas através de políticas públicas que não vieram de cima para baixo, mas foram aprovadas formalmente devido aos anos de ativismo e às declarações nas conferências internacionais que impuseram a quebrar do silêncio comprometedor. Para se ter uma idéia, com a implantação do Disque 180, no período de 2006 a 2012 este serviço já contabilizou 2,7 milhões de atendimentos. Embora uma Delegacia de Mulheres esteja apta a receber as denúncias contra a violência sofrida, um contingente significativo de mulheres ainda usa um serviço anônimo para denunciar. Mas essa campanha prossegue. Com a ajuda das midias quem sabe chegaremos a um mundo sem esses casos de violência em que a cada 2 minutos, 5 mulheres são espancadas, dez mulheres são mortas por dia. E 6 em cada 10 brasileiros conhece alguma mulher que foi vítima de violência doméstica.

(Texto origialmente publicado em "O Liberal" -PA)
 

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