domingo, 26 de abril de 2015

A ARQUITETURA DO PASSADO E AS CLASSES SOCIAIS


Cine Olympia , no ano de sua inauguração, 1912

A memória histórica de uma cidade tende a se comunicar também através de seus monumentos. Sabiam disso os egípcios quando fizeram as pirâmides. Também os gregos, os romanos, muitas civilizações que se desapareceram com o tempo persistiram no espaço. A nossa Belém, como todo núcleo residencial, tem suas relíquias históricas edificadas em anos passados. Hoje, ao comemorar os 103 anos do cinema Olympia, a casa de exibição cinematográfica mais antiga do país em atividade e sem hiatos significativos, é de olhar para trás e ver o quanto se perdeu em termos dessas edificações históricas e o quanto ainda persiste desafiando a passagem dos anos.
Há pouco foi comemorado o aniversário do mercado Ver o Peso que tem quase a idade do município de Belém. Criado logo depois da cidade “nascer” é um dos pontos característicos de uma cultura que mescla o índio e o europeu. Mas quem passar por este mercado, um pouco adiante, vai encontrar dois templos históricos: a Igreja das Mercês, que na sua fachada tem o registro de 1640, e a Catedral da Sé (que integra o complexo da Cidade Velha, o Feliz Lusitânia) cuja construção data de 1748-1771.
Esses templos foram desenhados e/ ou reformados por Antonio Landi, arquiteto bolonhês que esteve no Pará desde 1753. Como reforma por esse arquiteto pode-se citar o que fizeram os jesuítas, mas seu toque fez sobreviver, pelo menos em suas linhas primitivas. São várias igrejas, sendo a mais recente de sua lavra a de Sant’Ana da Campina, que recentemente recebeu uma reforma obedecendo ao traço original. Diz Leandro Tocantins, um estudioso da obra de Landi: “...jamais representou o abandono dos valores culturais que faziam parte de sua personalidade de homem europeu e, especialmente, de italiano. Ao contrário, sua presença no Brasil - e no Brasil mais tropical que é a Amazônia - significou a introdução de formas e concepções técnicas e artísticas novas para o Brasil daquela época, e a feliz convergência de estilos em voga na Itália e em Portugal, sem esquecer a íntima correlação entre a arquitetura e o meio (...).
Além dos templos, Belém guarda prédios de residências que evocam a época da borracha, a nossa “belle époque”, e alguns lugares públicos, as praças, parcialmente desfiguradas nas muitas reformas. Cita-se como exemplo a Praça da República, inicialmente chamado Largo da Pólvora (por ali estar um deposito desse inflamável). As estatuas que compõem esse logradouro dizem de suas idades embora algumas tenham desaparecido. Nesse espaço está o Teatro da Paz, outro monumento que lembra o auge da goma elástica; perto dele esteve o Grande Hotel, então o mais luxuoso da cidade, primeiro lugar a usar ar condicionado em pelo menos uma sala; adiante, o Palace Theatre, transformado em sede de banco; e o citado cinema Olympia.
O Grande Hotel foi transformado em Hilton Hotel com total mudança nas linhas arquitetônicas, desfigurando o que marcava um espaço da elite local no período em que essa classe social vivia o idioma francês como um marco de cultura pessoal, com um “terrasse” evocando bares parisienses. No Grande Hotel se hospedaram personalidades incluindo artistas de cinema como Errol Flynn, Lana Turner e Orson Welles. No Palace Theatre exibia-se teatro e cinema. Os filmes eram silenciosos (ou mudos), como de início os que chegavam ao Olympia (e o espaço era dos mesmos proprietários, Antônio Martins e Carlos Teixeira). Nessa história há outros monumentos ao redor da praça pouco tratados, como o Cine Eden e o Cine Rio Branco. Porque não lembrados? Frequentavam-nos outras classes sociais.
O período efervescente da borracha veio um pouco antes do intendente Antônio Lemos urbanizar a cidade com a plantação de mangueiras. Pode-se dizer que mesmo depois dos ingleses terem conseguido cultivar a seringueira em suas possessões asiáticas ainda se vivia, em Belém, o clima de euforia comercial & social dessa fase.
No quadrado cultural estruturado pelo Theatro da Paz, Grande Hotel, Olympia e Palace Theatre está inscrito o que se lamenta perder e o que se festeja em preservar. O Teatro ainda ostenta seu aspecto original externa e interiormente. O cinema restou no nome e área construída. O que o promove é o fato de persistir na exibição da arte que o fez nascer. Já o Grande Hotel e o Palace restam na saudade dos mais velhos e nos documentos escritos (e fotografados).
Outros monumentos da história da cidade estão na arquitetura das casas, ou palacetes cujos proprietárias eram ricos comerciantes e políticos da época que imprimiam aos imóveis construídos seus nomes de família. Um dos mais conhecidos é o Palacete Bolonha, do início do século XX. Há outros ainda de pé, como o de Montenegro, Virgilio Sampaio, Bricio da Costa e muitos outros, que pela insensibilidade e especulação imobiliária demoliram (cf. livro de Euler Bentes et ali, 2007).
A história do município através de edificações não se restringiu ao centro. Na vila do Mosqueiro, por exemplo, registra-se a presença dos “chalets”, onde as linhas arquitetônicas obedeciam (ou obedecem pois felizmente algumas mereceram reforma que segue as linhas originais) o que chamava atenção no início do século passado, evocando aspecto europeu, especialmente francês.
O que ainda existe do passado local deve ser preservado ou se tentar recuperar. Há uma literatura estimável sobre o assunto. Agora, Belém caminhando para o quarto centenário é oportuno tratar do assunto. E porque referir sobre esse patrimônio, mesmo considerando a valorização de um acúmulo de história patrimonial de uma classe social no poder? É que a identidade urbanística da cidade tem se dado por esses monumentos ainda de pé. Considero que as referências entre essas obras, o lugar onde foram construídas e as análises históricas do relacionamento entre o propósito urbanístico da burguesia tendem a revelar importantes matérias para ser encontrado o “outro” da cidade, ou como viviam as classes mais pobres. Essa seria uma considerável revelação histórica para marcar os 400 anos de Belém. Há material, basta esforço para compilar.

 (Texto originalmente publicado em O Liberal de 24/04/2015)

sexta-feira, 17 de abril de 2015

ÍNDIOS E ARMADILHAS DA INFORMAÇÃO


Mulheres Kalapalo dançanado na festa Itão Kuegu (Yamuricumã) na aldeiia Matipu. Foto de Camila Gauditano. 2001

Embora as escolas brasileiras de décadas passadas lembrassem aoos alunos e alunas o histórico da figura do índio no Brasil, em 19 de abril, havia, contudo, uma tendência para mostrar esses primeiros habitantes do país como exóticos, perigosos e outros des-valores que a minha geração somente aos poucos foi reavaliando, refazendo a ideologia anti-étnica. A Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (SECAD/MEC) em parceria com o Laboratório de Pesquisas em Etnicidade, Cultura e Desenvolvimento (LACED), ligado ao Departamento de Antropologia do Museu Nacional da UFRJ lançou um livro considerando um outro olhar sobre a questão propiciando o que está sendo chamado de série Vias dos Saberes.
Na coleção “Educação Para Todos”, o livro “O Índio Brasileiro: o que você precisa saber sobre os povos indígenas no Brasil de hoje” (MEC/UNESCO, 2006) organizado por Gersem dos Santos Luciano (mestre em Antropologia Social e descendente do povo Baniwa , tribo que vive na fronteira do Brasil com a Venezuela), a introdução de Ricardo Henriques diz: “Uma de nossas mais importantes missões é propor uma agenda pública para o Sistema Nacional de Ensino, que promova a diversidade sociocultural, extrapolando o seu mero reconhecimento, patamar já afirmado em diversos estudos sobre nossa sociedade, os quais derivam, em sua grande maioria, de celebrações reificantes da produção cultural de diferentes grupos sociais, que folclorizam manifestações produzidas e reproduzidas no dia-a-dia das dinâmicas sociais e reduzem os valores simbólicos que dão coesão e sentido aos projetos e às práticas sociais de inúmeras comunidades.”(p. 9) Interessa, presentemente, interferir nessa realidade para criar um processo reflexivo dessas questões que chegaram à educação no interior de uma história de subordinação da diversidade cultural “que teve na escola o espaço para consolidação e disseminação de explicações encobridoras da complexidade de que se constitui nossa sociedade”.
E acrescenta: “Como convencer os atores sociais de que a invisibilidade dessa diversidade é geradora de desigualdades sociais? Como promover cidadanias afirmadoras de suas identidades, compatíveis com a atual construção da cidadania brasileira, em um mundo tensionado entre pluralidade e universalidade, entre o local e o global?” (p.10) Superar uma realidade construida sobre a diversidade cultural desses povos, está sendo uma reviravolta do ensino nas escolas através de políticas públicas não só nas pesquisas, mas nas atividades in loco tencendo novos olhares para nossos irmãos habitantes deste país e que foram expulsos, sendo suas terras saqueadas e incendiadas como meio de os mandatários políticos alargarem a base de terras nacionais.
Uma reflexão sobre o assunto começa pela etimologia da palavra índio. Por que índio? Cristovão Colombo, presumivelmente, o primeiro europeu a chegar à América (pelo menos oficialmente, pois se sabe que muitos estiveram antes no continente), chamou dessa forma a quem pensou que fosse habitante das Índias, afinal a meta do navegador.
Os chamados descobridores encontraram um povo dividido em varias comunidades, ou tribos, com organizações sociais específicas. Chamou a atenção, especialmente, à hegemonia na divisão dessas comunidades: não havia propriedade privada afora os meios de caça onde cada índio possuía suas armas.
No Brasil estima-se que Cabral encontrou cerca de 5 milhões de índios, divididos em tribos de acordo, principalmente, com a língua. Estimam-se os tupi-guaranis (região do litoral), macro-jê ou tapuias (região do Planalto Central), aruaques (Amazonia) e caraíbas (Amazônia). Nas expedições que se seguiram foram encontradas comunidades menores com feições peculiares. De um modo geral a sociedade indígena tinha como ponto de referencia o cacique, ou chefe da tribo, e o pagé, líder religioso.
Os padres que chegaram com os chamados descobridores tentaram “catequizar” os índios, ensinando preceitos da religião católica. Paulatinamente aconteceu o que se vê como descaracterização do meio originário. Isso não só sob o ponto de vista cultural como físico, com tribos inteiras sendo dizimadas por doenças trazidas pelo branco.
Mais adiante no tempo e mesmo com a descoberta de comunidades indígenas que não tiveram contato com outras etnias por viverem em regiões mais isoladas e ainda não devassadas, passou-se a estudar e tratar do índio reconhecendo a sua especificidade social e histórica. Criaram-se organismos como a SPI (Serviço de Proteção ao Indio) criado em 20 de junho de 1910, pelo Decreto nº 8.072, tendo por objetivo prestar assistência a todos os índios do território nacional (Oliveira, 1947). Esse projeto, que instituía a assistência leiga intentando o afastamento da Igreja Católica da catequese indígena, com a nova diretriz republicana de separação Igreja-Estado tinha outro emblema que era adotar um processo civilizatório transformando o índio num trabalhador nacional.
Deslocando a refllexão para o projeto de uma nova mentalidade onde a diversidade é vista com o acento cultural e não da desigualdade, presente na argumentação de Gersem dos Santos Luciano vê-se que o índio do século XXI passa a ser, de um modo geral (pois ainda há tribos escondidas em regiões como a Amazonia), um povo que luta por direitos humanos como os irmãos de outras categorias étnicas. Para esse autor, desde a última decada do século passado ocorre no Brasil um fenômeno conhecido como “etnogênese” ou “reetinização”. Os povos indigenas que foram marcados pela violência e pelo estigma devido aos seus costumes tradicionais o que os forçava à negação de suas identidades tribais principalmente como estratégia de sobrevivência “– assim amenizando as agruras do preconceito e da discriminação – estão reassumindo e recriando as suas tradições indígenas. Esse fenômeno está ocorrendo principalmente na região Nordeste e no sul da região Norte, precisamente no estado do Pará”.
A população indigena é hoje bem menor do que os 5 milhões do inicio do descobrimento. Segundo o Censo 2010 (IBGE) o Brasil possuí apenas 896.917 indios (0,47% da população nacional).
Esta é a minha homenagem a esse povo cujo respeito eu reverencio em nome dos direitos humanos.


(Texto originalmente publicado em "O Liberal" de 17/04/2015)

sexta-feira, 10 de abril de 2015

CRISE POLITICA DE 1935 – 80 ANOS



Joaquim de Magalhães Cardoso Barata


Em 5 de abril de 1935, ocorria em Belém uma das mais sérias crises políticas após a revolução de 1930 (implantação da Segunda República – 1930-1937). O conflito entre blocos no poder deste período precipita-se com a não indicação de Joaquim de Magalhães Cardoso Barata ao governo do Pará, em eleição indireta dos membros do Congresso do Estado formado por deputados e senadores do Partido Liberal (PL) e Frente Única Paraense (FUP) eleitos em outubro de 1934.
O desencadeamento dessa crise desenrola-se no dia 4 de abril de 1935, data indicada para a eleição. As articulações secretas de dissidentes do PL desde janeiro desse ano favoreceram a cooptação de sete deputados do partido que não votariam em Barata e que se asilaram no Comando da 8ª Região Militar, sendo abrigados juntamente com os nove membros eleitos da FUP, os dois partidos majoritários.
Essa dissidência fortalecia a oposição que passou a ter a maioria do quórum, podendo indicar quem quisesse para o cargo. Entretanto, a força ainda estava nas mãos do Interventor que, além de tudo, tinha os "batalhões patrióticos" para arregimentar a massa popular contra os "traidores".
Mesmo sem quórum, os deputados liberais que ficaram fiéis a Magalhães Barata, preencheram as vacâncias chamando, em lugar dos dissidentes, os suplentes para a sessão da Assembleia, onde se daria a eleição, completando a maioria absoluta e, dessa forma, elegendo Barata para o cargo de governador constitucional e Ápio Medrado e Fenelón Perdigão como senadores.
Os recursos interpostos aos tribunais eleitorais declararam nula a eleição realizada sem o grupo dissidente. No dia seguinte, dia 5 de abril, os deputados asilados tentaram sair do Quartel General protegidos por um habeas corpus que lhe fora concedido pelo TRE, resguardados pelo desembargador Dantas Cavalcante, mas o percurso dos opositores (Praça da Bandeira) não atingiu o objetivo, ocorrendo um violento conflito entre as forças do Exército que preservavam os dissidentes, e membros da Concentração Política Magalhães Barata (força politica militante criada por Aníbal Duarte, cunhado de Barata), colocada em pontos estratégicos do percurso que seria feito por aqueles e a grande massa popular que estava presente na ocasião. Houve feridos e mortos. Alguns dos deputados dissidentes foram hospitalizados. Foi nomeado um novo Interventor federal, Major Carneiro de Mendonça. Afastou-se de imediato o nome de Barata que não poderia ficar no cargo pelo qual lutara tenazmente.
Da atitude dos sete deputados liberais, ao fazerem a coalizão com a oposição, a argumentação histórica aponta duas situações: traição ou dissidência? O que teria ocorrido? Entre os partidários de Barata, a postura dos membros do PL foi tratada como traição. Caracterizam essa atitude com a utilização de indícios morais, pessoais e políticos como reforço à denúncia. Por outro lado, a defesa dos dissidentes denuncia abusos de poder praticados pelo Interventor e a dúvida quanto ao cumprimento da palavra empenhada com os correligionários na distribuição dos cargos da senatoria. Os fatos de agressão e violência contra Genaro Ponte Souza, Abguar Bastos e Acylino de Leão (exigência de desistência do cargo para ser preenchido pelo irmão de MB) comprometiam a palavra do Interventor. Num manifesto que fez publicar, no "O Estado do Pará", em 09/04/1935, um membro dissidente do PL nega o argumento de traição, remetendo a culpa a Barata e aponta os motivos que o levaram a dissentir, como as estratégias montadas pelo Interventor para alijá-los do poder e transformar o PL numa facção de caráter doméstico, comandado por seu cunhado, Aníbal Duarte. Denuncia a criação da Concentração Politica Magalhães Barata como "arma para matar o PL", sendo este argumento, o mais forte para justificar o motivo principal da coalizão com os eleitos pela FUP. Há denúncia de a prática política de Magalhães Barata estar desvirtuada do ideário revolucionário, com a dissidência optando pela "salvação" desse ideário fortalecendo o PL que Barata pretendia aniquilar com a força da Concentração Política.
Teoricamente identifico o conflito como uma crise hegemônica do bloco histórico (cf. Gramsci). Na aparência dos fatos, sobressai uma crise pessoal, quase doméstica levando a identificação prematura de um ato de "traição". Entretanto, os elementos subjacentes da crise hegemônica não surgem no momento da ruptura, mas em fatos anteriores que contribuíram para a ação final. É sintoma da construção desse momento os rompimentos entre os revolucionários, desde os primeiros anos após 1930, os cortes pelo Interventor do poder das lideranças emergentes que se organizavam em torno dele (rompe com Martins e Silva, líder da Federação do Trabalho), a arregimentação de grupos de interesse (magistério feminino) e grupos de pressão ("batalhões patrióticos"), supervisão do poder do magistério nas escolas, incentivando as práticas "cívicas", incorporação de outros grupos de interesse no séquito de apoio (Maçonaria, igreja, operários). À medida que o Interventor Barata construía seu poder pessoal, no conjunto da sociedade civil, fortalecia também um grupo de apoio dentro do próprio PL onde transitavam outros membros da classe dominante, também interessados em manter e defender sua predominância política. Ocorre que o Interventor tinha construído as bases ideológicas de um discurso populista, arregimentando as massas populares para, no momento aprazado, poder influir com maior peso do que o adversário, seus companheiros de partido que pertenciam à elite dominante e mantinham o poder econômico. Ele tinha o poder do Estado, mas não contava com a possibilidade de uma aliança de classes, única saída para fraturar esse poder. A coalizão realizada entre os dissidentes do PL e os membros da FUP, fortalecendo a elite decaída e fraturando as resistências dos grupos de pressão, através de medidas legais que afastaram as possibilidades de interposição de medidas coercitivas dos aparelhos de Estado, ainda nas mãos do Interventor, contribuíram para o desfecho violento que sacudiu a cidade de Belém, na tarde do dia 5 de abril de 1935. Houve, portanto, dissidência de uma parte dos membros da classe dominante que percebeu seu alijamento da organização partidária, onde se expressava o seu poder de classe.

(Texto originalmente publicado em "O Liberal" de 10/04/2015)


sexta-feira, 3 de abril de 2015

A PAIXÃO E A SITUAÇÃO



Embora o Brasil seja um país laico, os chamados dias santificados são considerados como feriados nacionais. Especificamente o Natal e a Semana Santa. No meu tempo de criança, o período dedicado a lembrar da paixão de Cristo era marcado pelo respeito dos cristãos. Na 6ª Feira Santa, especialmente no horário tratado como as “3 horas da agonia” (o tempo em que Jesus morreu crucificado) nossos pais exigiam um comportamento normativo em que o próprio falar era em murmúrio. Guardávamos o silencio que seria a forma de respeito ao Senhor morto. O Natal é que sempre foi marcado pelos presentes, pela imagem do Papai Noel, mescla de culturas que eclipsavam o motivo básico, que seria o nascimento de Cristo (uma data, enfim, escolhida pela Igreja posto que historicamente é discutida). Basicamente a confraternização familiar. Penso que dessa forma se festejava, sim, a vinda do Criador. Mas o que dizer da época da Paixão? Um mínimo de respeito seria de se desejar. O tratamento dado agora, como um feriado qualquer onde as pessoas procuram as praias ou as piscinas para banhos divertidos supõe-se não revelarem a contrição pensando no Crucificado. Mas se o conforto familiar é explicito, se há uma manifestação de amor entre as pessoas, nada a condenar como um desacato ao momento que o calendário indica. Afinal, Jesus pregou o amor e as orações falam de que morreu por isso, pelo amor ao próximo.
No mundo atual, o período está cercado de fatos que deixam pensar. A morte de 150 pessoas num desastre de aviação que pode ter sido uma forma de suicídio de um co-piloto do Airbus caído na França é uma demonstração, caso tenha sido verdadeira a causa, de um egoísmo trágico (o homem que desejava tirar a vida sem considerar que levaria consigo tantos acompanhantes). E o momento politico mundial, as constantes investidas terroristas no oriente, a falta de uma conciliação em terras por onde Cristo andou, e, no nosso país, o reflexo de uma crise econômica que vem de longe, um dos problemas comuns ao capitalismo?
A insatisfação do ser humano diante de situações que não entende e amplifica na sua conceituação critica é um caso a se pensar no período em que Jesus foi traído e condenado à morte. Se o apóstolo Judas recebeu 30 dinheiros para entregar seu mestre aos soldados romanos, quantos, atualmente, pedem quantias por desvios morais? Há uma anedota que diz ter sido ínfimo o valor que o apóstolo infiel recebeu por sua traição. Hoje se inflaciona tudo, dos atos aos informes. Tornou-se moda a investigação por conta de desserviços na administração publica. O espectador desse quadro pensa que tudo em volta é corrupto, é malsão. Não é à toa que na literatura e no cinema os atuais tipos maus (chamados “bandidos”) passam a ser vistos como “mocinhos”. A velha dicotomia “bateu as asas” na assertiva de que não há santo sobre a terra. Mas se Judas se enforcou arrependido de seu ato, que dizer de quem entrega alguém sem provas suficientes de seu crime formulando no mínimo, uma tortura psicológica pela formação ideológica conservadora?
Jesus foi um subversivo de seu tempo e espaço, contrariando as normas e os interesses do rei Herodes e do Império Romano. A voz do povo da antiga Galiléia vinha há algum tempo de João Batista pregando uma revolução pacifica, admoestando os judeus da proximidade da vinda de um “Messias” que estabeleceria o “Reino do Céu”. Incomodava a quem usufruía de benesses, e ao se mostrar um líder que criticava o poder dos poderosos (como o rei Herodes) foi condenado e morto. O mesmo ocorreu com Jesus.
Interessante observar que mesmo sem a mídia que passou a existir influenciando multidões (naquele momento as manifestações eram em editos e presenciais) eles foram vistos sem comoção pelos espectadores de julgamentos, decapitando-se João Batista e preferindo-se a liberdade do criminoso Barrabás no lugar do Nazareno. É que as vozes dos opositores às pregações de amor tornaram-no antipático à multidão mesmo com os milagres que realizou.
Como se observa no comportamento humano desde épocas remotas, as influências malsãs nas diversas formas que são veiculadas afetam julgamentos. Pensando nisso guarda-se respeito ao Dia da Paixão. Lembrando o sacrifício de quem amou a humanidade deve-se analisar situações e comportamentos antes de um veredito que patrocina formas de violência. E hoje se fomenta o ódio através de veículos de comunicação adentrando pelos lares e estimulando comportamentos sem se importar que alguns sejam modulados por traumas, como o caso do aviador do Airbus.
Triste ainda é a aprovação, pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados da PEC 171/93, admitindo a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos infringindo o artigo 228 da Constituição Federal e o artigo 27 do Código Penal. Os 42 votos a favor e 17 contra - resultado que está gerando protestos nacionais – investem numa perspectiva de que a prisão do menor infrator irá dimensionar os crimes e eliminar a violência no Brasil quando na verdade esse espaço serve de criador de mais atitudes violentas. É a Paixão que se traduz em frases religiosas quando esquecem que mais salvacionismo se dá pela criação de escolas, “prendendo” esses garotos em locais onde possam sair melhores pelo processo educacional. Replicando o poeta Sergio Vaz: “sou a favor do aumento da maioridade escolar (...) porque lugar de criança é presa na Escola. (...). Depois de cumprirem pena e se tornarem cidadãos terão liberdade assistida… Pelos pais orgulhosos.” (Revista Forum)
Que a passagem renovada (Páscoa) não deixe que o descalabro da menoridade penal se instale.
(Texto ooriginalmente publicado em O Liberal, de 03/04/2015)

domingo, 29 de março de 2015

A MENTIRA NA HISTÓRIA


https://cahisunifesp.wordpress.com/

Dois fatos são registrados no período que vai do final de março ao primeiro dia de abril. Há o chamado “Dia da Mentira” no começo do mês, advindo de uma série de manifestações culturais ao redor do mundo, como a teimosia dos franceses do século XVI que não aceitaram o calendário proposto pelo papa Gregório (e o rei Carlos IX), mantendo a comemoração da entrada de ano em 1° de abril ao invés de 1° de janeiro. Foram chamados de mentirosos e o dia escolhido o que faziam por merecer. Mas no Brasil o 1° de abril passou a ser comemorado em Minas Gerais no seculo XIX através do jornal “A Mentira”, lançado em 1º de abril de 1828, com a notícia do falecimento de D. Pedro, desmentida no dia seguinte.
Muitas brincadeiras surgiram com o passar dos anos com base no dia da mentira. Mas quando se pensava que uma delas estava no ar, surgia a verdade de que o presidente João Goulart tinha deixado o governo e o país estava nas mãos dos militares.
O chamado Golpe de 64 entrou em cena no Brasil como uma cruel verdade. Lembro que nessa data, morando numa casa na hoje av. Governador José Malcher (antes S. Jeronimo) assisti, da sacada do prédio, o movimento que se fazia na sede da UAP (União Acadêmica Paraense) com a invasão de soldados prendendo jovens que lá estavam reunidos para tomar posição frente ao movimento que depunha o presidente eleito com a justificativa de que ele estava liderando grupos chamados de “inimigos internos” para transformar o país subvertendo a ordem existente, em uma ditadura socialista, a exemplo de Cuba.
Nesse tempo, as familias de classe média seguiam a versão dos golpistas, incentivados por agentes norte-americanos (Lyndon Johnson , presidente dos EUA, afirmara que tudo ia fazer para livrar o Brasil de ser uma nova republica comunista na America Latina). Houve um desfile nas ruas chamado de “Marcha da Familia com Deus Pela Liberdade”. Quem não estava andando em festejo ao movimento acenava das janelas das casas num sentido de aprovação ao que via.
Estudos atuais mostram que o golpe não deve ser considerado exclusivamente militar, visto que houve apoio significativo de segmentos sociais importantes como os grandes proprietários rurais, a burguesia industrial paulista, grande parte das classes médias urbanas, além do setor conservador e anticomunista da Igreja Católica (a principal reponsavel por promover a “Marcha da Familia ....” realizada em 19 de março desse ano).
O passar do tempo mudou o cenário. Com os atos instituicionais, especialmente o 5° que ratificou a ditadura, sequenciaram-se atos de censura, a prisão e morte de quem não estivesse de acordo com o regime instalado, a invasão das escolas e universidades, as torturas, a espionagem invadindo espaços diversos .
Entre os nossos amigos muitos foram vítimas da violencia que se instalou no país a partir de abril de 1964. E como na época eu já participava do movimento cineclubistico, tive conhecimento dos cortes e outros tipos de mutilação que eram aplicados aos filmes (alguns dignos de um anedotário como as bolinhas pretas sobre os orgãos sexuais dos atores, como em “Laranja Mecanica”, de Stanley Kubrick). Considere-se também o volume de filmes que foram proibidos e se deixou de ver devido ao crivo censorial que exigia ainda uma postura cultural brasileira extremamente tradicional.
As informações eram cerceadas e pouco se sabia dos protestos existentes em várias frentes. Tive notícias sobre a guerrilha no Araguaia através de um exibidor cinematografico que referiu em conversa ter viajado com uma jovem considerada subversiva, de Marabá para Belém. Também porejavam acontecimentos trágicos atraves de amigos estudantes e professores alguns presos, outros sofrendo o cerceamento ao seu direito de ser admitido na universidade por concurso público devido a tal “folha corrida”.
Os intelectuais viviam acuados pela força bruta que os censurava com ameaças de prisão. Lembro que já redigindo a coluna de cinema no O LIBERAL fui intimada pela Polícia Federal para prestar depoimento sobre uma entrevista que fiz onde o estrevistado (o presidente do Sindicato dos Jornalistas a época) criticava a censura e tratava de filmes políticos que não chegavam aos cinemas de Belém. Na ocasião, o interrogador dizia sempre que “não era sádico”, queria saber apenas a verdade. Rômulo Maiorana designou um jornalista que era advogado para me acompanhar nessa “sessão”.
O medo era o grande patrocinador do regime imposto. Todo mundo tinha medo de falar, de agir, pensando que as menores coisas pudessem ferir a susceptibilidade dos mandatários e resultasse em prisão.
Este quadro de terror persistiu por muitos anos. E se hoje eu recordo é porque fiquei indignada com as faixas exibidas numa recente passeata de protesto contra o governo federal onde se pedia “a volta dos militares”. Como se vê, hoje é possivel escrever contra qualquer coisa exibindo propostas absurdas desde que pareçam incisivas aos olhos de quem as elabora. Que não conhece a história do Brasil e ou pretende continuar se locupletando. Pedem a volta de um regime de opressão, mas naquela época não se podia nem pensar em protestos, em desacordos com os mandos do governo (e eram mandos pois não havia oposição legal). Há de se considerar que estamos numa democracia e que em tempo algum se deteve tantos agravantes contra a ordem estabelecida, revelando-se atos de corrupçao e detendo-se quem as praticou. Tambem não se podia fazer como hoje se faz através da midia agravos contra governantes. E hoje há varios tipos de midia, como a eletrônica invadindo os lares muitas vezes tentando modular a opinião publica a favor de interesses particulares.
Só quem não viveu o que se seguiu em 1964 ao dia da mentira faz fé numa proposta que dá o tom perverso mesmo sendo tratada como mentirosa.

(Texto originalmente publicado em O Liberal, de 27/03/2015)

segunda-feira, 23 de março de 2015

O ATO DE PROTESTAR


https://pimentacomlimao.files.wordpress.com 

Nas manifestações de rua acontecidas no domingo (15/03) houve quem portasse uma faixa pedindo intervenção militar no governo e/ou que este grupo voltasse ao poder (?). Lembrei-me de dois fatos que se assemelham: um que se chamou “marcha da família com Deus e pela liberdade” com a mídia instigada por Assis Chateaubriand dos Diários Associados & empresas (cf. http://www.jornalmovimento.com.br) que pedia a exclusão do governo de João Goulart como um meio de livrar o Brasil do “comunismo ateu”. Outra, já instalado o regime de força (13/06/1964), pedia “ouro para o bem do Brasil” levando bandeiras estendidas para colocar dinheiro ou joias que seriam contabilizados para pagar as dívidas nacionais. A primeira trocou ameaça de uma nova Cuba por um período em que a liberdade civil foi virtualmente cerceada. A segunda não mereceu ao menos uma contabilidade levada a público. Circulava de boca em boca (pois a censura não admitia anedotas) que o ouro era um bem muito particular. Não se falou em “lava jato”.
Em 2013, as manifestações de junho com amplitude plenamente democrática partiram de uma campanha contestatória aos aumentos nas tarifas de transporte público com uma visão de protesto pacífico, levando, entretanto, a uma segunda fase com focos de vandalismo e represálias.
Manifestações populares são impensadas num regime ditatorial. Mesmo em governos que mascaram ditadura com uma fachada democrática, o ato de protestar gera prisão com todos os elementos que possam acompanhar esse ato. Afinal, democracia vem do grego dēmokratía  que significa "governo do povo". Na teoria clássica diz-se que é o cidadão que governa através de pessoas que elege para governar. Se essas pessoas não demonstram nos postos a que são eleitas, dignas da confiança de quem as colocou ali, elas são cobradas dos que as elegeram. Mas os protestos nem sempre se dirigem a governantes. Cabem, muitas vezes, a atos de governo, ou a fatos que de alguma forma se ligam a parâmetros governamentais. Há dois anos o motivo dos protestos começou no aumento das passagens de ônibus urbanos. Hoje cabem na Petrobras e, por continuidade, nas revelações de falcatruas que existiam na empresa nacional. Evidentemente, os motivos, em ambos os casos, extrapolam para outros que flagrantemente revelam propostas de oposição politica. E são tratados parcialmente nas informações. Como houve uma eleição recente em que foi reeleita a presidente da nação, além da base parlamentar, os opositores seguem a velha cantiga de que “o povo elegeu, mas já se arrependeu”. Uma análise extremamente rápida de uma situação que tende a refletir a vontade do que já se chamou de “terceiro turno”.
O que é importante observar nas manifestações populares de rua é que elas tendem a ser manipuladas e escancaram opiniões até mesmo sem conhecer a história dos protestos no país. Muitos “passeiam” pelas avenidas ao som do que possa ritmar uma dança. Afinal é uma novidade, um novo programa dominical. Naturalmente há quem esteja desfilando ciente de elementos críticos, julgando os atos dos mandatários pelo que observa através da mídia. E ainda hoje esta ganha espaço no que é impresso, no que é televisionado, no que passa pelas redes sociais. Essas notícias veiculadas de diversas maneiras em várias versões tendem a regular o raciocínio de muitos que não conhecem meandros de um sistema de governo, que sentem o aumento do custo de vida como um desacerto de mandatários irresponsáveis ou que não sabem administrar. Com a idéia de que está custando mais caro o que ontem era mais barato, por culpa exclusiva de governantes, começam os protestos. E estes aumentam quando a própria mídia revela a corrupção nas diversas áreas que geram o custo de vida (a energia elétrica, por exemplo).
O ato de protestar é como já disse um cientista, “ atitude fisiológica”. Protestam os contrariados, mas também protestam quem acha que as coisas podiam estar melhores. No caso, o ato de protestar ganha volume quando engrandece, em termos. Uma pessoa escrevendo no facebook ou no twitter que é contra um determinado assunto não ganha espaço como unida a outras pessoas e ganhando as ruas para dizer o mesmo. Até porque essa forma adquire mais espaço em outras mídias.
O que ressalta o valor democrático é a demonstração de desacordo sem beligerância. Na onda de protestar contra o aumento dos ônibus queimaram-se carros, bancos, lojas, atacaram transeuntes, demonstraram uma guerra contra seu próprio bem posto que o quebra-quebra atuava em espaços públicos. Mas cabe a fonte dos protestos analisar bem as manifestações e respondê-las com a consciência de que se existem erros o melhor é corrigi-los. Nunca se quebra um pote porque a agua está suja. O trabalho é limpar e, no país onde a corrupção existe desde os seus primórdios, é importante ver que hoje há tentativa de eliminar esta corrupção, detendo os corruptos, pugnando pelo cumprimento das leis, fazendo com que o povo sinta que é governo, que os seus eleitos merecem confiança (em caso contrário que sintam isso e mudem de alguma forma).
O ato de protestar, repito, é saudável num sistema democrático sem desvios. Quem poderia protestar contra a Constituição escrita pelo primeiro imperador (D. Pedro I)? Quem protestaria contra as torturas que se faziam no governo militar, incluindo a terrível “Operação Condor” que jogava no oceano os corpos ainda vivos dos que protestavam (e há os que pleiteiam a volta desse sistema)? E é só olhar em torno e ver, por exemplo, o prefeito de Caracas sendo preso por protestar contra o presidente do país.
Que viva a nossa capacidade de dizer o que pensa. Que seja reconhecido, contudo, como dizem os percentuais nas pesquisas de opinião, que mais de 80% dos que estavam em protestos neste domingo haviam votado no candidato perdedor nas eleições de 2014, portanto, um protesto partidário.
A pugna de uma parte da população que não foi às ruas no domingo é para que cheguem ao público informações isentas de parcialidade, o que realmente não tem acontecido.

(Texto originalmente publicado em "O Liberal" em 20/03/2015) 

domingo, 15 de março de 2015

PROTESTOS POLÍTICOS E PRECONCEITO




Os textos que escrevo neste espaço sempre têm fundamentos em pesquisas, estudos e ensaios que faço há mais de 37 anos (UFPA) e se deslocam para os acúmulos que fiz e tenho feito, durante minha vida de mulher madura e consciente de que alguma coisa havia/há de errado na hierarquia que distingue homens e mulheres e que eu aprendi ainda criança. Desde a indumentária própria a meninos e meninas ao modo de falar de cada um mesmo nos jogos infantis, havia sempre regras a determinar uma cultura específica para os dois gêneros. Depois, com a preocupação dos pais em contribuir para o avanço dos conhecimentos de seus filhos, a escola feminina e a masculina se mostraram dentro dos parâmetros aspirados para a continuação dos estudos.
Deslocando para outros recortes temporais as teorias estudadas no ensino superior na área sócio-política construíam a versão “para todos” onde se inclinavam as evidências do tratamento ao conceito de Homem, num plano universal, para tratar dos dois sexos. Tudo traduzido em regras sociais e acadêmicas que se fugisses à norma certamente estariam sendo vistas com incorreção e, numa prova escolar determinariam notas mais baixas e/ou mais altas caso expressassem ou não esses ensinamentos padrão.
O uso do dicionário para garantir a escrita da linguagem culta continha ou estabelecia verdadeiros diferenciais de vocábulos que para a criançada em tempo dos primeiros ciclos da escola básica eram motivo de chacotas dos meninos para as meninas. No recreio, chamar de “vaca” à colega esboçava comicidade e o autor do qualificativo depreciativo não era levado à sala da diretoria porque este era visto como “um garoto engraçado”, mesmo que com ele a classe masculina do seu grupo estivesse no coro injurioso. E o dicionário nem era consultado para avaliar uma das representações do termo – mulher de vida devassa – sendo essa a origem da “brincadeira”.
Mas a continuidade desses episódios deu sustentação à revisão da cultura cuja representação usava esse palavreado para humilhar as pessoas, no caso, as mulheres. E nesse aspecto outros termos da cultura sexista vieram se somar à lavra do dicionário querendo obter seriedade quanto às regras políticas democráticas ao serem instituídas as eleições num pleito de apresentação de candidatos e evidências aos que deveriam votar nesses sistemas. Para as mulheres que nos primórdios da república não eram incluídas como votantes, mesmo com as regras do censo que definia as quantias recebidas pelos cidadãos que deveriam votar (algumas chapeleiras e de outras profissões recebiam até muito mais do que muitos homens eleitores) os escritos  de Oliveira Viana (1977:163) discriminavam os eleitores e os que viviam nas cidades: “Os que habitam a povoação durante toda a semana são artífices (...) e homens sem ocupação, alguns mercadores e mulheres públicas”.
Partindo de toda uma reelaboração dos termos que no mais elementar compêndio (o dicionário) aos escritos que analisaram a base da cultura que tratava através de normas contratuais as relações de gênero na escola, no trabalho, na saúde, na política, houve revisão do tratamento dado às mulheres pelos direitos humanos numa república democrática (e além dela, nos vários sistemas políticos). E a revisão das teorias filosóficas, sociológicas, psicológicas e políticas através de uma base feminista refizeram o mal estar da modernidade no tratamento dado às mulheres marcado pela cultura tradicional que tratava “com naturalidade” as evidencias desrespeitosas dos modelos hierarquizados entre os gêneros. Refiro neste momento apenas a teórica política Carole Pateman em “O Contrato Sexual” (1995) ao observar como as discussões do tradicional Contrato Social (nas leis jus naturalistas) referem apenas metade da história social e em meio á revisão de clássicos reconhecidos ela avalia que “a questão do contrato sexual, que estabelece o patriarcado moderno e a dominação dos homens sobre as mulheres, foi sistematicamente recalcada” nesse contrato. Não vou me alongar nesse estudo de Pateman porque o interesse é usar sua análise para mostrar que nesses contratos que a autora trata exemplificam-se os que fazem parte da vida cotidiana, como os de casamento, trabalho, prostituição (...) etc.

Encabeçando os protestos atuais contra a Presidente Dilma Rousseff desde os que se fizeram em 2013, passando pelo período da copa do mundo e mais enfaticamente neste momento de sua reeleição e sequência de governo republicano há dois sinais de que a cultura tradicional contra as mulheres repercute como se fossem pretextos político-partidários para negar a ela o respeito como primeira mandatária do país. Já tratei neste espaço do formato como as três candidatas à presidência em 2014 foram tratadas ao longo da campanha, mas, neste momento que está sendo sumariamente escrachado é o epiteto de “vadia” e a relação do protesto como o “panelaço”. Os dois termos são parte da representação pejorativa em que são incluídas as mulheres há centenas de anos e ainda hoje os adversários da presidente revelam que esse protesto é político-partidário devido o formato da administração pública que não está a contento. No caso do “panelaço” a evidência é também anti-feminina porque secularmente quem “mexeu com panelas” foram as mulheres. E nessa onda quantas mulheres se incorporam sequer pensando que estão fazendo parte da cultura sexista recorrente que ainda hoje é forte no Brasil e que tem deixado marcas em vítimas do feminicidio. Por que “não é de “bom-tom” homens mexerem com panelas que lhes tira a virilidade.

Protestar é um direito, mas antes é preciso pensar em quanto preconceito é escarrado de bocas supostamente elegantes. E criando uma máscara de que é um protesto partidário quando na verdade é extremamente político contra as mulheres. Acusadas de não saberem administrar, que refazem regras, que revisam notas, que erram e etc.etc e que, principalmente, não devem estar num alto cargo como o de presidente da república. Foi preciso 83 anos de direito do voto às mulheres brasileiras para que elas chegassem a esse alcance. Mas as tralhas preconceituosas as acompanham.

(Texto originalmente publicado em "O Liberal", de 13/03/2015)